O abismo que vemos se consolidar entre a universidade e a comunidade, por todas as regiões no Brasil, parece-me constituir-se num grave problema. Esse abismo é reflexo, historicamente, dos entraves para estabelecer-se a unidade entre o campo teórico e a esfera da prática. Mas também indica as dificuldades para realizar-se em termos efetivos o trinômio ''pesquisa, ensino, e extensão'', que precisaria ser assumido como um ditame por parte de todo professor/pesquisador que atua na universidade.

Esse abismo, essa desconexão, entre a universidade e a sociedade mostra-se como algo muito delicado para algumas áreas específicas do conhecimento humano que requerem um contato mais direto entre o professor/pesquisador, o estudante de graduação e a realidade concreta. Para darmos alguns exemplos bem grosseiros, focalizando o caso dos estudantes, pensemos no tipo de engenheiro que uma universidade pode produzir se o aluno nunca viu uma obra? Ou que espécie de assistente social a instituição universitária pode formar se o acadêmico não toma partido efetivamente da realidade concreta, em todos os seus planos, na comunidade onde ele habita? Ou que tipo de professor da educação básica a universidade pode gerar se o aprendiz no ensino superior não tem praticamente familiaridade com a escola?

Certos de todas essas dificuldades, e para não autorizar que apenas notícias ruins ocupem espaço em nossos meios de comunicação, os governantes brasileiros trataram de criar alguns programas úteis, como, por exemplo, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) em 2007.

Movido por um convênio entre o governo federal e as diferentes universidades públicas brasileiras, sendo gerenciado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes), o Pibid tornou-se extensivo, recentemente, às universidades estaduais, após uma experiência de poucos anos, contando só com a participação das Universidades Federais.

A Universidade Estadual de Londrina (UEL) não perdeu a oportunidade de participar do primeiro edital do programa em 2009, e hoje conta no seu projeto, desta primeira edição, com um grupo envolvendo 6 cursos de licenciatura da universidade, quais sejam: física, matemática, química, biologia, letras, e filosofia.

O Pibid/UEL, na sua base estruturante, tem um coordenador-geral que dialoga com a Capes em nome da universidade, representando o conjunto todo do projeto. Depois, cada área do conhecimento atua a partir de um subprojeto que conta com um coordenador-geral, formado na sua respectiva especialidade. Cada escola envolvida cede um professor/supervisor para cada subprojeto, sendo esse um representante ativo de sua matéria na escola. A filosofia, por exemplo, trabalha com duas escolas, e dispõe, portanto, de dois professores/supervisores. A quantidade de alunos/bolsistas varia de acordo com a área do conhecimento e temos, por isso, entre 14 e 24 alunos/bolsistas por área. No total do Pibid/UEL, nessa primeira edição, aparecem cadastrados 122 estudantes/bolsistas que podem voltar suas atenções, com mais esmero, para seu processo formativo.

À parte o incentivo financeiro, que beneficia, aliás, os próprios professores/supervisores nas escolas com a concessão de bolsas, o Pibid possibilita encurtar-se aquela distância entre a universidade e a escola; permite qualificar-se o trabalho de formação de nossos alunos; mostra aberto o espaço para se capacitar professores da educação básica, afastados já da pesquisa em razão da carga excessiva de trabalho que eles têm na sala de aula. Trata-se de um programa que dá motivos, portanto, para pensarmos que existem luzes no fim do túnel, sendo o mundo não reduzido apenas às tragédias produzidas pelo homem no meio social com sua inépcia política.

ARLEI DE ESPÍNDOLA é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina


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