O filme ''A Paixão de Cristo'', de Mel Gibson, provoca inúmeras reações. As cenas ali apresentadas, em um primeiro momento, podem nos levar a procurar culpados: judeus? romanos? Mas logo percebemos que esses, na verdade, representam a todos nós.

As imagens encenadas são como um espelho a reproduzir em cores vivas as ações de maldade e de violência que o ser humano é capaz de praticar quando, ao invés de se orientar pelos valores do amor, da paz e da liberdade, prefere os interesses egoístas, o jogo dos poderes, a traição, a intolerância, o ódio, a guerra.

O enredo também gera decepção: as formas institucionais de poder criadas pelas sociedades, sejam políticas, jurídicas ou religiosas, podem perder sua legitimidade de existir quando, ao invés de promover o bem comum, zelar pela justiça e pela vida, se deixam manchar pela hipocrisia, pelo abuso de poder e pelos interesses puramente materiais e egoístas.

Nesse aspecto, o filme quer alertar que em nome da justiça, da fé e de uma suposta defesa do bem coletivo, podem se cometer atrocidades. Mas o trabalho de Gibson também nos apresenta um sinal de esperança.

Durante a sua vida, Jesus mostra que mesmo quando isolado, perseguido, mal compreendido, difamado, ainda assim é possível amar, compadecer, perdoar, ser solidário. Ao percorrer o caminho da cruz ele amorosamente se solidariza com os oprimidos, doentes, marginalizados, publicanos, prostitutas, escravos e os que são tidos como hereges. Ele se torna um desses. Morre por esses. Por isso sua mensagem continuará ecoando como um alerta contra a violência e os abusos de poder sejam pessoais ou institucionais enquanto permanecer a indiferença em relação ao sofrimento do outro.


O filme também nos apresenta a mensagem de que poderemos continuar repetindo os atos da via crucis e do Calvário contra Jesus toda vez que não o percebermos na face de uma criança vitimada pela fome, nos corpos dos que são brutalmente torturados por regimes totalitários ou na morte de inocentes que se tornam vítimas de atentados terroristas. ''Sempre que o fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes'' (Mt.25:40).

Ele sofreu e morreu na luta contra as causas objetivas que geravam e que, infelizmente, ainda geram sofrimento e morte. Ressurgiu para demonstrar que a sua causa e a sua missão não podem ser interrompidas.

WANDER DE LARA PROENÇA é professor da Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina

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