ESPAÇO ABERTO - Uma década em perspectiva
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de janeiro de 2011
Luis Miguel Luzio dos Santos 
Uma das marcas da década que findou foi a derrocada do ideário neoliberal que dominou quase absoluto nos últimos 30 anos. Ele se baseava num enxugamento drástico dos estados no qual as forças do livre mercado assumiam o protagonismo na geração e distribuição da riqueza. Porém, de fato o que se assistiu foi a um período em que a pobreza se proliferou e a distância entre ricos e pobres assumiu proporções nunca antes vistas, além do verdadeiro colapso ambiental decorrente de um modelo de desenvolvimento predatório e irracional que teve na crise de 2008, suas incoerências expostas e que fez com que os mercados tivessem que recorrer aos governos para que todo o sistema não entrasse em colapso.
Eric Hobsbawm, um dos mais prestigiados historiadores contemporâneos, afirma que se a história tem algo a ensinar é que regimes de livre comércio, com minimização das regulamentações estatais, não são sustentáveis a longo prazo. A realidade histórica indica que os mercados quando afastados de qualquer regulamentação, apenas passam de um desequilíbrio a outro, em função de fatores naturais e sociais, beneficiando uma minoria em detrimento da grande maioria.
O Brasil pode-se orgulhar de ter sido um dos poucos países a adotar uma lógica distinta da maioria dos países do mundo, assumindo o Estado como principal indutor do desenvolvimento econômico e social, impulsionando setores estratégicos e mais necessitados e principalmente estabelecendo prioridades sociais claras. Inverteu-se a lógica de fazer o bolo crescer para depois dividi-lo, substituindo-a por dividi-lo para poder crescer. Os números vêm confirmar esse bom momento, depois de mais de 20 anos com um PIB anual crescendo abaixo de 2% ao ano, conseguimos finalizar a última década com crescimento acima de 5%, puxado pelo aumento da classe C que superou os 50% da população, contra 35% em 2000. Também vale a pena ressaltar a redução do desemprego, já que em 2003 encontrava-se em 12,3% e fechou 2010 em 5,7%, com o salário mínimo avançando de US$ 80 no início da década para mais de US$ 300 no final dela.
As reservas cambiais, nossa poupança em moeda estrangeira, também foram motivo de orgulho nacional, pulando de pífios US$ 33 bilhões para fechar 2010 em US$ 290 bilhões, superando a dívida externa brasileira que parecia impagável. A dívida pública, ainda que tenha crescido nominalmente, foi reduzida em relação ao PIB, passando de 50% por volta do ano 2000 para próximo a 40% em 2010. Porém, certamente, terão de melhorar a qualidade dos gastos, já que as demandas são imensas e de elevada gravidade o que exige eficiência total na utilização desses recursos e o que se percebe, são gastos exagerados em atividades meio, comprometendo a efetividade das atividades fins, como redução da pobreza, educação e saúde e investimentos essenciais em infraestrutura.
Para podermos pensar em continuar a trilhar o caminho do tão almejado desenvolvimento socioeconômico sustentável teremos que resolver o problema dos gargalos estruturais. Estudos comprovam que qualquer crescimento do PIB acima de 6% provoca risco de apagão, seja energético, rodoviário, portuário, aeroviário ou de mão de obra, o que faz com que o aumento do investimento em infraestrutura se torne emergencial, passando dos atuais 18% do PIB para algo próximo a 25%.
Ainda que os últimos dez anos tenham sido animadores, também foram palco de uma relativização da ética, na perigosa lógica de que os fins justificam os meios e em certos momentos uma arrogância diante da realidade. Há que se considerar que todos os avanços alcançados e os que estão por vir, só farão sentido se respeitarem a ética e as instituições democráticas e fizerem da erradicação da pobreza, da distribuição de renda e do equilíbrio ambiental, verdadeiras obsessões nacionais.
LUIS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é economista, doutor em Ciências Sociais e professor do departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina
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