Pensar acerca do indivíduo contemporâneo é impossível senão compreendermos qual é o cenário social atual. Portanto, faz-se necessário pontuar o capitalismo como um ponto importante nesta análise.
A busca pelo acúmulo de capital é pressuposto do sistema capitalista e as formas para alcançar este objetivo também: assim a sociedade divide-se entre um detendo o poder e o outro submetendo-se a ele.
Em 1844 Marx, em seus escritos, já considerava a forma de trabalho como alienante, visto que a divisão social do trabalho está sujeita às leis da mercadoria, ou seja, é ela que regula as relações sociais. Isso culmina em um empobrecimento subjetivo. Pois o tempo de execução do trabalho não respeita a dinâmica psicológica do trabalhador e sim do capital: a garantia da eficiência das máquinas é sobreposta ao valor humano. Deste modo, é a máquina que passa a ser essencial, colocando o trabalhador como mais uma peça.
Quando falamos em máquinas, não tratamos somente o universo fabril, mas também o cenário administrativo, no qual o recurso humano submete-se à informatização de controles de processos e informações. É ele – computador – que define e regimenta o trabalho diário. Independente da formação intelectual, operar essa máquina satisfatoriamente é primordial na execução do trabalho desses profissionais, tornando o lado humano empobrecido. Essa pobreza em significado cria um vazio na subjetividade do indivíduo, o qual passa a não ter mais seus desejos e sentimentos diversos, pois tudo isso já foi fabricado pela indústria e disseminado pela cultura. A indústria cultural opina, dá conselhos, informação política, porém de forma fútil e sobretudo conformista.
O homem moderno, a partir disso, experimenta-se como objeto: uma incorporação de energias que são investidas lucrativamente no mercado, sentindo seu semelhante como uma coisa a ser usada e intermediada pelo intercâmbio lucrativo, já que este homem-mercadoria só conhece um meio de se relacionar com o mundo exterior e interno: consumi-lo.
Porém, a questão é: por que sucumbimos a esse modo de vir a ser e saímos em busca de mercadorias – através de marcas, acessórios e hábitos – e informações – por meio de redes sociais e tecnologia da informação -, tornando-nos iguais uns aos outros?
Nossa hipótese é que o que buscamos verdadeiramente não são bens e sim sentimentos, acolhimento e proteção. E neste sentido, fazer parte da massa culmina em um sentimento de proteção – segundo Freud. As massas têm um poder e o indivíduo inserido em um grupo sente-se mais acolhido, protegido e age diferente do que faria caso estivesse só.
Outra coisa também a ser pensada é que quem se encontra inserido num grupo fica, ao ter essa sensação de proteção, sem precisar mais pensar sobre si, ou seja, pega um papel que a massa lhe dá e o aceita facilmente. Pensar sobre si e trazer um significado à própria vida requer uma decisão individual e não mais grupal, pois o caminho que leva ao autoconhecimento e à verdadeira liberdade e busca de realizações só pode ser trilhado individualmente. Só que esse caminho é longo e custoso. É mais cômodo pertencer a uma massa, ou seja, consumir, do que construir. No entanto, não ser alienado significa ser sujeito da própria vida, se tornar ativo e responsável pelas escolhas que faz.
Um provérbio oriental diz que toda grande jornada começa com um primeiro passo e o primeiro passo para uma grande e verdadeira mudança no mundo é o autoconhecimento. Só a sabedoria que vem do autoconhecimento permite transformar a ignorância e alienação em algo humano e realmente eficaz.

SYLVIO DO AMARAL SCHREINER
é psicoterapeuta em Londrina e
CHRISTIANE ALFREDO
é psicóloga em São Paulo

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 li­nhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas).
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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