Ao iniciar este escrito, metade da tarde, estou acabando de chegar do cinema e de ver a ''Paixão de Cristo''. Oportuno lembrar que Cristo não sentiu nenhuma paixão, nem foi crucificado, porque o que aconteceu foi com Jesus, corpo e espírito. Cristo é o fogo divino, presente muito acentuadamente em Jesus enquanto revestido de seu corpo físico o Cristo presente em todos nós.

Começando, não se pode dar conotação de anti-semitismo e buscar saber-se quem condenou Jesus, se os judeus ou os romanos. Há algo mais que observar que essas irrelevâncias. Se os judeus, pela mão dos sumo sacerdotes, induziram ao desfecho da crucificação, terá sido um fato histórico e revivê-lo não é condenação. Este é um estigma que os que estavam lá, dois mil anos atrás, devem estar carregando eventualmente ainda rondando o triste espetáculo. Os judeus atuais, portanto, não têm que se incomodar se não participaram do processo.

O filme é perfeito quanto ao seu aspecto plástico. Quase duas horas de pancadaria, e esta é a definição. Sons e imagens inigualáveis para o que desejava Mel Gibson. Ele contou a verdade, porque foi isso mesmo que aconteceu quanto ao episódio do julgamento de Jesus e seu martírio. A violência em tamanho grau ficou por conta do cineasta. Certo é que nenhum corpo físico suportaria dois dias de tanta agressão. Gibson exagerou nisso e transformou o iluminado Mestre num Rambo, que a tudo resiste.

Extravagâncias à parte, talvez por um predeterminismo e não necessariamente por consciência de missão, Gibson está sendo o agente difusor, para a população de toda a Terra, de um revival de sábios ensinamentos do Mestre galileu. ''Amai-vos uns aos outros'', ''Perdoai os inimigos'', ''Pai, perdoa-os'', serão conclamações de Jesus que cristãos e não-cristãos ouvirão pelos quatro cantos do mundo. E isto salva Gibson de seus ''pecados'' por mostrar tanta brutalidade.

''Se não queres ouvir a verdade, ninguém te dirá'', diz Cláudia, mulher e conselheira de Pilatos, quando ele não sabe o que fazer, ante à fúria dos sumo sacerdotes e do gentio. Sábias palavras. Certamente que ele sabia qual era a verdade. A sensibilidade de Gibson em exaltar esses extratos incluindo as palavras essenciais do ministério de Jesus foram os momentos em que se revelou a sua missão. O filme não pode ser assistido como quem vai a um culto, embora seja do agrado de muitos imaginar que, com isso, haja um reforço de fé. Que seja pelos ensinamentos ali contidos, porque Jesus não gostaria que ninguém se condoesse e se sensibilizasse por isso.

Muitos indagam o que representa a figura do andrógino, que desponta aqui e acolá durante todo o tempo. É a simbologia do ego. Que ronda, mas não consegue se sobrepor ao predomínio do espírito de Jesus. Correntes religiosas mais ortodoxas o entendem como o demônio, o que pode ser isso se lhes aprouver, porque a simbolologia do mal é representada pelo componente egótico do ser humano aí os demônios. Jesus, como humano, também foi tentado pelo próprio ego, em mais de uma ocasião. Quando ele disse que venceu o mundo, quis dizer que vencia o ego.

O filme de Mel Gibson vale muito mais para os já iluminados e que enxergam além das cortinas de anti-semitismos, do bem e do mal e coisas do gênero. Agrada aos glorificadores do martírio da cruz, que sofrem com isso embora não se comovam com os ensinamentos do Mestre crucificado e pouco o pratiquem. As lágrimas vertem, nos sensíveis, não pela imagem da violência e da dor, mas por esses momentos muito especiais que acabam por consagrar a obra de Gibson.

WALMOR MACARINI é jornalista

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