As cidades de Londrina e Cambé dispõem do raro privilégio para a salvaguarda de autênticos espaços da cultura afro-brasileira. A residência e o terreiro de candomblé de Yá Mukumby, assassinada em 2013, poderiam abrigar projetos de ocupação cultural e de inclusão social. A mobilização e a cooperação trariam resultados significativos na promoção da cidadania e dos direitos humanos, no combate ao preconceito de cor e gênero e à intolerância religiosa. Comunidade negra, instâncias administrativas municipais, governo estadual, Poder Judiciário, movimentos sociais e universidades poderiam atuar juntos.
As mudanças no acesso e oportunidades de ascensão social e de consumo pela população afro-brasileira têm sido acompanhadas de manifestações explícitas e virulentas de preconceito de cor e de intolerância religiosa. Tristes exemplos aparecem em estádios de futebol, na mídia, na apreciação de juízes, no material didático, nas escolas e universidades. É inadiável a formulação de ações e políticas públicas para a integridade e a valorização social da população afro-brasileira. A constituição de um Memorial Afro-brasileiro comporta a tecnologia social propícia para tal finalidade.
Essa presença cultural, a trajetória do candomblé e da liderança feminina negra, vítima de violência e de fanatismo brutais, sustentam inúmeras possibilidades de ação educativa. Artes, história, cursos e palestras, exposições, culinária e idiomas africanos, estudos e pesquisas, são algumas delas. A promoção do patrimônio afro-brasileiro converte-se em meio e fim da cidadania e completa-se com a preservação dos testemunhos materiais, simbólicos, da memória individual e coletiva. Trata-se de protegê-lo e a seus agentes, diretos e indiretos, contra o desconhecimento, a destruição e a discriminação. O inventário do acervo reunido por Yá Mukumby é o ponto de partida na construção de políticas públicas para essa amostra de distinção étnica e religiosa no Brasil.
O memorial atuaria pela necessária mediação na reelaboração e na afirmação social, preservação, estudo e difusão da cultura e da cosmovisão africana e afro-brasileira em toda a região, tecendo modelos de políticas públicas. O conhecimento do passado e dos equipamentos culturais do povo negro nos centros urbanos, como os terreiros de candomblé, e os traços urbanos nas expressões espirituais afro-brasileiras, encontrariam no memorial um núcleo de referências. A construção de novas realidades, valores e ideais de vida teria ali um laboratório de experiências inovadoras de cidadania e de inclusão social sem paralelo.
Audiências públicas sobre o destino do espaço, dos objetos e do legado cultural dessa presença poderiam catalisar propostas, aproximar interessados e desencadear um processo participativo de salvaguarda coletiva deste conjunto singular do patrimônio. O universo simbólico, a memória das representações e da prática social na formação da solidariedade comunitária da população afrodescendente e da cosmovisão africana são igualmente relevantes face ao predomínio do individualismo como padrão de comportamento social.
Constituindo-se em lugar de aprender cidadania e direitos humanos, o memorial afro-brasileiro atuaria na reversão de tendências de desenraizamento e de isolamento na vida social, fraturada pela desigualdade, a discriminação e a violência. Seria exemplar na garantia do direito universal às diferenças de gênero, étnicas e religiosas e da pluralidade das culturas.
A educação multicultural é central não apenas na desmontagem da imagem negativa do negro no universo racista brasileiro. Ela promove a busca de mudanças e a descolonização de terminologias, do imaginário e de atitudes no cotidiano. Há que se extrair e aproveitar pedagogicamente toda a força simbólica contida no patrimônio cultural.

PAULO HENRIQUE MARTINEZ
é professor no departamento de História da Universidade Estadual Paulista em Assis (SP)

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