Espaço Aberto - Um massacre silencioso
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de junho de 2016
Camille Vieira da Costa e Daniel Alves Pereira 
No dia 12 de junho, Omar Mateen entrou em uma boate gay de Orlando, nos Estados Unidos, e matou 49 pessoas. Outras 53 ficaram feridas. Há 43 anos, em 24 de junho de 1973, o bar gay UpStair Lounge, em Nova Orleans, no sul dos EUA, foi incendiado. O saldo foi de 32 mortos. O caso, na época, foi tratado com indiferença pela mídia e pelas autoridades. Isso explica o fato de muita gente nem saber desse massacre que, por muito tempo, foi considerado o maior ataque ao público LGBT naquele país.
Na tragédia de Orlando, além da quantidade de mortos, chamou atenção como principal motivação para o crime a ascendência afegã do autor dos disparos e sua suposta ligação com o Estado Islâmico (EI). Contudo, as investigações apontam para algo além do terror de motivações religiosas imposto pelo EI. Dentre os vários relatos, destaca-se o fato de o atirador ter frequentado com assiduidade a boate onde ocorreu o ataque. Ele também bebia bastante e falava sobre o pai, a esposa e o filho e demonstrava aos familiares um claro comportamento homofóbico. Ainda que inspirado pelos terroristas ou baseado na sua fé, o verdadeiro motivo para a violência praticada por Omar foi o ódio à comunidade LGBT.
Mateen era um norte-americano de 29 anos que, com armas compradas no próprio país, deu vazão a um ódio presente em muitos de seus conterrâneos. Sua ascendência afegã soa como subterfúgio de uma sociedade que tem vergonha de mostrar a verdadeira face. Por aqui, a coisa não é diferente. O Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais no Brasil, relativo a 2014, aponta 326 mortes de gays, travestis e lésbicas, incluindo 9 suicídios. Uma morte a cada 27 horas. Ostentamos a vergonhosa marca de ser o país com o maior índice de mortes motivadas por transfobia.
Há no Brasil uma cultura de marginalização, apagamento e extermínio silencioso dos homossexuais. Não entramos em boates abrindo fogo, mas agimos de forma velada, alimentando um discurso de intolerância que gera inúmeras mortes, convenientemente espaçadas no tempo e espaço de forma que sua real motivação se dilui. Isso permite a manutenção de um discurso de que aqui não há homofobia e que a comunidade LGBT deseja privilégios, uma vez que vive em um país maravilhoso e igualitário. Enquanto isso, as mortes continuam ocorrendo.
Vimos o chamado "kit anti-homofobia", produzido pelo MEC para ser distribuído em escolas públicas, ser vetado pela Presidência da República. Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou o Estatuto da Família, que impõe à sociedade o conceito de família baseado somente na união entre homem e mulher. No Brasil, como em Orlando, homossexuais são proibidos de doar sangue fato que está sendo questionado no Supremo Tribunal Federal. Poucos dias após a aprovação do Decreto Federal nº 8.727/16, que autoriza o uso do nome social por indivíduos trans e travestis, parlamentares apresentaram pedido para sustar o decreto.
Em tempos de discriminação, violência, crime e discurso de ódio, é importante que seja pautada a discussão sobre tolerância. Ser tolerante não é abrir mão de suas convicções e fazer concessões com seus próprios valores. Tampouco é usar o verbo "tolerar" como forma de suportar o outro. O verbo "tolerar", no sentido condizente com uma cultura de paz, é aceitar que o outro pode usufruir de sua liberdade e autonomia, é estar aberto ao diálogo com espaço, inclusive, para a tentativa de persuasão do seu ponto de vista. A diferença e a diversidade são inerentes à condição humana. Nisso reside a beleza da vida. Só a cultura da paz e da tolerância serão capazes de evitar as tragédias com as quais estamos tendo de lidar.
CAMILLE VIEIRA DA COSTA e DANIEL ALVES PEREIRA são defensores públicos do Paraná
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