ESPAÇO ABERTO - Um mar de comida
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quarta-feira, 06 de agosto de 2003
Walmor Macarini 
Deve ter sido contemplado por Deus um país que tem o ''problema'' da falta de armazéns para guardar suas abundantes safras agrícolas. Deu ontem neste jornal: no Paraná, as últimas colheitas de soja e milho abarrotam os celeiros e não há mais espaço para armazenar tanto alimento. E no Brasil, a safra do presente ano-agrícola atinge a marca de 120 milhões de toneladas de grãos. Um recorde e uma sucessão de recordes anuais. Para não falar de tudo o mais que a cadeia rural brasileira produz.
E, no entanto, quase um terço dos patrícios come mal e outro tanto mantém sob rígido controle o gasto com alimentação. Só uma minoria come abundantemente. E... desperdiça na mesma proporção.
Um país de paióis abarrotados de alimento e grande parte de seu povo subnutrido e vendo-se na dependência de campanhas como esta da Fome Zero! Um contra-senso. Fome imperando com despensa cheia; e existência de colonos sem-terra num país com estoque ainda grande de terras aráveis por explorar e com uma população relativamente baixa.
E a tendência é que o tamanho da produção cresça continuamente, pela expansão progressiva do espaço cultivado; e cresça também a produtividade, pelo aumento do volume de colheita por área, face aos avanços da tecnologia. E se as safras tenderão a crescer - grãos, hortaliças, frutas - aumentará também a produção paralela da pecuária de corte, em todos os seus segmentos, pois é inter-relacionada.
Um mar de comida! E a estimativa dos técnicos é que o Brasil pode, em futuro não muito distante, triplicar a produção atual de alimentos. Tudo isso sem derrubar uma única árvore, portanto, deixando intactas as nossas florestas. Afora - imagino eu - as culturas hidropônicas, que dispensam o uso da terra.
Se fizermos as contas, dividindo a produção pelo número de habitantes, veremos que sobra comida. Mas por que, em meio a tanta abundância, muitos passam fome? Porque uma parte é exportada - o que é bom para a balança comercial -, porque necessitamos da contrapartida de importações, e porque o mundo precisa alimentar-se; parcelas perdem-se na colheita, no transporte, na armazenagem, no encaixotamento, na manipulação desleixada e desperdiçadora (incluindo a ação dos clientes apalpadores) e no que as mesas fartas jogam fora. Os analistas do lixo orgânico urbano que o digam.
Que país fantástico é este, que produz muito mais alimento que a necessidade de consumo de seus cidadãos! E que civilização somos nós, brasileiros, que não sabemos fazer a adequada divisão (porque há insuficiente poder aquisitivo) e permitimos que metade dos nossos co-irmãos passe dificuldade alimentar! Um dia a Providência Divina nos cobrará isso.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


