ESPAÇO ABERTO - Tropa de Elite: ficção de violência na realidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de novembro de 2010
Edivan Pedro dos Santos 
O cinema brasileiro tem abordado recentemente a realidade da violência social do país, especialmente a do tráfico de drogas e o papel da polícia. O filme Tropa de Elite retrata bem esse movimento, que seria apenas tendência do mercado cinematográfico, se não fosse possível ver ficção e realidade se confundindo. É uma constatação feita nesse filme de José Padilha, que avisa que o Tropa 2 é uma obra de ficção, tamanho entrecruzamento com o mundo real.
Outras cenas revelam o que a população espera da polícia no combate à violência em nossas cidades. Exemplo: a cena das pessoas aplaudindo o capitão Nascimento no restaurante, forçando o governo a desistir de exonerá-lo, indica que o povo deseja que a polícia faça uso da força bruta para garantir segurança aos cidadãos.
De fato, o sentimento de vingança contra os violentadores, que molda nossa sociedade, anima muitas pessoas a irem ao cinema, assistir filmes nacionais como Tropa de Elite. Quer-se apenas vibrar com o Bope torturando e matando bandidos. Não se percebe as críticas que o Tropa faz a essa polícia especializada. Muda-se até o perfil do capitão Nascimento, transformando-o num policial durão, quando não passa de uma pessoa em crise existencial, provocada trabalho no Bope. Não se vê que essa tropa de elite é arbitrária em seus métodos operacionais, marcados pelo preconceito social e racial.
A mistura da realidade com a ficção e vice-versa (truculência policial e a aprovação popular) acaba gerando um pensamento único: o Bope como política pública de segurança a ser implementada pelo Estado. Parece ter sido nessa direção que o governo do Paraná transformou a Companhia de Polícia de Choque em Batalhão de Operações Especiais, o Bope paranaense. Fez porque os Estados brasileiros estão criando seus Bopes, justificados pelo aumento da criminalidade e da violência nos centros urbanos, e o Paraná não poderia ficar de fora, pensando também já na Copa de 2014.
Sublinhamos que é sempre arriscado pegar carona na popularidade de um filme para fortalecer a violência policial. A polícia de choque já é meio suspeita de ser violenta em suas incursões, e com a força cultural da marca Bope, ela poderá se achar no direito de usar as famigeradas sacolinhas pedagógicas em suas ações, sobretudo nos presídios e cadeias públicas para saber onde estão os estoques, drogas e celulares.
Não nos enganemos: violência gerará sempre mais violência. É uma ilusão pensar que o Bope garantirá a paz em nossas ruas, praças, avenidas e bairros, pobres ou ricos. Não. E se ainda há aqueles que aplaudem o jeito de ser polícia do Bope, repito em forma de afirmação a fala da personagem de Tropa 2, o defensor de direitos humanos: não há motivo algum para se orgulhar de uma polícia que tem como símbolo uma caveira, símbolo do medo e da morte.
Já estamos demais embrutecidos. O belo some do horizonte e sem ele não há o ético. Chega dessa paz armada. Digamos não aos caveirões em nossas ruas. Faço um apelo: recusem a brutalidade em todas suas formas, especialmente a institucionalizada, seja política ou policial. Protejamos nossa sociedade da volta à barbárie e à arbitrariedade legalizadas.
EDIVAN PEDRO DOS SANTOS é assessor eclesiástico da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Londrina
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