Dizem até que almas brasileiras, quando no além, gozam de grandes descontos nos seus pecados por terem vivido num inferno tributário. Há até a história de uma alma mais pura e beata que teria confessado ao cacique da triagem na porta do céu que, além dos pecados já perdoados, possuía algumas sonegações feitas quando viva no Brasil e teve a seguinte resposta: isso não consta aqui porque quem rouba de ladrão tem cem anos de perdão.
É uma grita geral e a imprensa, que muito nos ajuda, condena esse tipo de procedimento do governo insistentemente. Qualquer coisa é tributada. Aqui nessa santa terra todo mundo tributa e cria taxas de todo tipo. A injustiça ocupa o lugar do Direito e a iniquidade o lugar da Justiça. Curiosamente, todos os órgãos criados para ajudar a fiscalizar a comunidade são especialistas em multar. Quando há um desastre ecológico, por exemplo, ouve-se mais sobre o montante das multas a serem aplicadas (sempre de milhões) do que da restauração dos prejuízos.
Governo federal, ministérios e todos seus órgãos, incluindo prefeituras, multam incessantemente tornando-se difícil comprovar inocência. Há tantos procedimentos injustos e irregulares dos prepostos do governo que se faria um livro, mas é chover no molhado. O pior de tudo nessa parafernália é que nos pronunciamentos, procedimentos e atitudes dos políticos não se percebe nada na direção de gastar menos, racionalizar e moralizar. É bem por essa razão que uma eventual reforma tributária, estaríamos nós, os contribuintes, esfolados de vez.
Há uma estranha malvadeza em ludibriar o povo. Quando o contribuinte usava as placas amarelas em seus carros e o governo as ''oficiais'' chapas brancas sabiam do mau uso do bem público que a imprensa tanto condenava. O governo acabou com o problema: todo mundo usa chapa branca e os milhões de irregularidades se diluíram. Não há como fiscalizar atualmente a profusão de tributos, taxas e outras armadilhas do governo, incluindo a famigerada indústria das multas na qual corre-se o risco de ser multado enquanto se dorme.
A grande e louvável idéia da OAB de fiscalizar os tributos e acompanhar as respectivas aplicações, aliando ao que já faz a imprensa, vai dar resultado. É preciso que a sociedade organizada se junte ao processo de moralização para que se colha frutos. Até aqui a nossa passividade tem feito com que o governo se julgue o dono absoluto do Brasil sem sê-lo. A OAB com seu gabarito jurídico sabe que quanto maior a corrupção e descontrole maior é o número de leis e medidas provisórias.
Albert Einstein em seu livro ''Como vejo o mundo'' conclui que no além deve haver um tipo de controle que pode ser um tipo de peneira para nos encaminhar segundo nossos merecimentos a algum lugar. Depois de Einstein, há quem acredite que no céu nossos carrascos não entram e no inferno o diabo não quer saber desse pessoal para não desorganizar o sistema. Curiosamente, todas as empresas que têm preços monitorados pelo governo vão muito bem, exceto o sistema bancário que estabelece seus próprios lucros, juros, taxas altas e todo tipo de assalto que acaba sendo oficial sob a proteção do Banco Central que concorda com tudo e nada fiscaliza.
EDSON HERINGER é empresário em Londrina

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