Trânsito, onipotência e contenção
É mais do que sabido de que o trânsito nas cidades se encontra caótico e lamentável. Infrações, atropelamentos, xingamentos fazem parte do dia a dia de quem se locomove. Tudo isso é muito triste e é causado pela falta de contenção e pelo excesso de onipotência.
A onipotência é um estado no qual a pessoa acredita que ela tudo pode, tudo dá conta e não reconhece limites. Vejo, com grande frequência e infelicidade, que muitos motoristas estão prontos a chamarem atenção de seus pares quando alguém ultrapassa o sinal vermelho ou realiza qualquer manobra ilegal. Buzinam loucamente, quando não xingam ou fazem gestos obscenos. Porém, quando eles mesmos incorrem nos erros e são flagrados, ficam ultrajados e arrumam qualquer desculpa para tentar justificar suas infrações. ''Hoje tive que fazer isso por que estava com pressa. Parei na faixa de pedestre por que não deu pra atravessar'', são muitas as falsas desculpas porque no fundo, na maior parte das vezes, se trata mesmo é de falta de respeito. Se todo mundo pensar assim o número de infrações será grande e o bom senso e respeito será deixado de lado.
A contenção se faz necessária para a boa convivência no trânsito e na vida. Sem ela tendemos a achar que temos mais direitos que os outros e de que nossas necessidades são mais urgentes. Um grande engano porque todos têm pressa, mas não devemos nos basear nisso para justificar a falta de respeito. É necessário se conter e saber aguardar para que os direitos dos outros também tenham vez. Se valer da onipotência é um grande mal porque nos faz achar que somos melhores e mais importantes que os outros. Isso destrói a humanização e cria cada vez mais violência e desrespeito. Se conter é se dar limites e saber que não existe só nós, mas toda uma comunidade lá fora. Se dar limites é reconhecer e ver o outro não como obstáculo que só existe para nos aborrecer, mas como um outro ser que está vivendo a vida assim como nós.
SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicólogo clínico em Londrina



Sentimento de amor e não de perda

  Por desconhecerem o significado da vida, são muitos os que temem a morte. Mas é nas limitações da fisicalidade que reside uma forma de prisão. A morte é um salto de liberdade, embora pequeno e ainda não o definitivo. No desenlace do invólucro carnal manifesta-se um dos belos aspectos do ciclo das existências. Então amanhã, denominado o Dia do Mortos - embora mortos não existam - vamos reverenciar todos esses seres vivos que em dado momento nos deixaram. Se oramos por eles é justamente porque os sabemos vivos.
  Saudade dessas pessoas todos sentimos, porque a ausência delas de alguma forma nos entristece, mas se temos consciência de que a vida é uma continuidade, devemos orar por elas com sentimento de amor e não de perda. Com manifestações angustiosas de dor, clamando pela falta que nos fazem aqueles entes amados que transcenderam, nós os ‘‘puxamos’’ de volta, e assim não lhes damos paz. Precisamos, com nossas preces e mentalizações, elevá-os para a luz. A melhor homenagem que podemos prestar-lhes é pela lembrança com carinho, agradecendo por eles terem convivido conosco. Iremos com certeza vê-los de novo, quando chegar a hora. A dor da separação é sempre grande, mas a morte é apenas um ‘‘até breve’’. Há uma sublime sabedoria regendo todas as coisas e nada ocorre fora do tempo.
  Devemos imaginar que estão em ascensão os que se desprenderam do mundo carnal. Se os amamos, não podemos lamentar por isso, porque eles sentem essa vibração e padecem muito com nossa agonia. E atentemos que muitos já podem ter reencarnado e estão outra vez entre nós, com nova roupagem física. Se uma morte trágica é sempre lembrada, não fazemos a tais vítimas nenhum bem, e sim um mal, porque as trazemos para o palco da tragédia. E isso é um novo martírio para elas. Clamores por justiça, divina ou terrena - quando houve assassinato - é uma veneno para os que ficam e para os que foram.
  Transformemos o proclamado Dia de Finados não em tristeza, mas em celebração pela vitória dos que já atravessaram esse portal e elevaram-se para um plano superior, onde resultará uma mais expandida capacidade de entendimento, embora tal não ocorra tão de imediato. Façamos da data de amanhã um festival de amor e reverência a esses nossos queridos, com alegria e festa na alma. É assim que os faremos felizes.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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