ESPAÇO ABERTO - Transgênico Monsanto: crime de lesa-pátria
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de outubro de 2003
André Carlos de Araújo Moreira 
Com mais de 50 anos nas lides agrícolas e o adiantado dos anos me propiciam a abordagem do problema ''soja transgênica Monsanto'', a independência de dizê-lo e a dignidade de assumi-lo. Apavora-me, creia-me, esta visão compartimentada de um problema altamente significativo aos interesses nacionais. Só nos resta uma porta, esta larga e promissora para a redenção do Brasil: a agroindústria. O certo é que não podemos ter pressa, na definição do transgênico da Monsanto, pode ser um crime de lesa-pátria. Não precisamos ser açodados, o desespero é dos Estados Unidos (EUA).
Nossa soja concorre tranquilamente em produtividade com os EUA, e a soja do Paraná tem 4% mais proteína e a do Maranhão 7% a mais que a transgênica americana. Nós podemos triplicar, decuplicar nossa produção, os EUA nem um hectare a mais tem para plantar.
O pavor dos EUA é tamanho que há pouco mais de um ano uma ONG de produtores americanos e canadenses teve o despudor de propor ao CNA (Conselho Nacional de Agricultura) pagar aos produtores brasileiros US$ 165 para cada hectare de soja não plantada. Foi uma desfaçatez da CNA em divulgar esta proposta altamente indecente e asquerosa a nossos interesses.
Aceitarmos a soja transgênica americana e estarmos atrelados ao nosso maior concorrente é pedir ao lobo que tome conta dos cordeiros. Neste particular lembro-me da 2 Guerra Mundial em que o Brasil, pacifista, foi forçado e entrar na guerra por pressão dos EUA. Terminada a guerra, o presidente Juscelino Kubitscheck precisando implantar uma política desenvolventista 50 anos em 5 solicitou aos EUA recursos, inclusive lembrando que tínhamos sido amigos incondicionais na guerra.
O secretário de Estado americano, Foster Dulles, foi peremptório, curto e grosso dizendo: ''Os EUA não têm amigos, têm interesses''. E Juscelino teve a dignidade de romper com o FMI. Aceitando a tecnologia americana de transgênia e nossa produção começar a incomodá-los economicamente, o que é inevitável, haverá outros Foster Dulles de plantão, creia.
Que não se pense que eu sou ingênuo. Sei perfeitamente que o futuro da agricultura e do próprio homem passará necessariamente pelo sequenciamento de DNA. Três países estão na vanguarda mundial em sequenciamento de DNA: Estados Unidos, Inglaterra e Brasil, e nossos pesquisadores de genética molecular mundialmente respeitados. A Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, é referência mundial.
E por que pagar por todos os séculos royalties aos americanos? Essa dúvida atroz nos persegue. Tristão de Athayde, um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros, costumava dizer que o Brasil é um país às avessas. E justificava lembrando que ''quando optamos por um modelo de transporte rodoviário, o mundo todo incentivava a construção de ferrovias, depois produzimos caminhões sem termos estradas, e, criamos universidades sem combater o analfabetismo''.
Será que complementaremos este conceito, estupidamente com o transgênico? Que não cometamos a incongruência de primeiro aceitar o transgênico Monsanto, e depois propiciarmos o nosso! Que o alerta seja lançado aos quatro ventos e bem alto! Um fantasma ronda o Brasil que dá certo.
ANDRÉ CARLOS DE ARAÚJO MOREIRA é dentista e agropecuarista em
Rolândia


