ESPAÇO ABERTO - Tragédia fortalece Programa Espacial
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terça-feira, 09 de setembro de 2003
Léo de Almeida Neves 
Entre emoção e lágrimas no velório dos 21 heróis sacrificados na explosão de Alcântara (MA), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu perante a Nação o compromisso de prosseguir com mais vigor o programa espacial brasileiro, cujo objetivo precípuo é colocar em órbita satélites conduzidos por Veículos de Lançamentos (VLS), produzidos com tecnologia nacional.
O Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA) é o único no mundo em que os foguetes aproveitando o impulso da rotação da terra utilizam um terço a menos de combustível e podem transportar mais carga a bordo, isto porque o local está praticamente na linha do Equador, favorecendo a entrada dos satélites em órbita.
Países com grande extensão territorial como a China e a Índia estão avançados na obtenção de tecnologia espacial, porque investiram fortemente nesse setor, mais de US$ 400 milhões por ano, enquanto o orçamento brasileiro de 2003 é de míseros R$ 47,9 milhões.
País algum transfere tecnologia avançada, que multiplica a geração de produtos com valor agregado nos setores aeroespacial, nuclear, sensor-eletrônico e química pura. Para afirmar-se como Nação soberana, o Brasil é obrigado a criar tecnologias próprias em áreas estratégicas e para isso não lhe faltam talentos com formação de nível médio e superior, civis e militares, formados no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e em outros centros de excelência universitária, capazes de levar avante essas empreitadas, desde que não faltem recursos, que não são simples rubricas de despesas constituindo na verdade investimentos, com retorno certo para consolidar o futuro do país.
Veja-se o projeto do submarino nuclear desenvolvido pela Marinha, graças ao qual o Brasil completou o ciclo industrial do urânio, minério radioativo abundante em nosso território. Conseguimos chegar ao enriquecimento do urânio, tornando-nos auto-suficientes na produção do combustível nuclear que abastece nossas usinas de Angra 1 e Angra 2, com sobra para exportação.
Havendo vontade política e determinação administrativa, saltaremos etapas e o VLS-1 será lançado com sucesso o mais rápido possível, ainda no governo Lula, alçando ao espaço nossos satélites de comunicação, de coletas de dados ambientais, meteorológicos, de monitoramento de recursos minerais e outros.
Sigiloso na sua essência, o Programa Aeroespacial brasileiro deve revestir-se de caráter excepcional aprovando-se legislação específica que o torne imune à burocracia das licitações nas compras de equipamentos, terceirização de serviços, parcerias com indústrias, contratação de obras de engenharia, cabendo estímulos salariais às pessoas engajadas no projeto, inclusive acréscimos por ocupação de alto risco.
É improvável a hipótese de sabotagem, mas está no cerne das investigações tentar esclarecer o que causou e de onde veio a descarga elétrica que teria iniciado a ignição do combustível de um dos motores. Satélite ou submarino poderiam ser a fonte remota que acionou o dispositivo de ignição do foguete? Um pequeno aparelho poderia disparar uma onda eletromagnética? É quase certo que não houve ação de terceiros, sendo mais provável falha mecânica, todavia todas as possibilidades terão que ser investigadas.
Antes e depois do fatídico de 22 de agosto de 2003, destacou-se a firme atuação do Ministro da Defesa José Viegas, a quem certamente será confiada a centralização e coordenação das providências para levar a bom termo novo formato legal, mantendo-se obviamente a execução do programa nas mãos do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Agência Espacial Brasileira (AEB) e outros órgãos vinculados à questão, bem divididas as responsabilidades de cada entidade e obedecida a hierarquia de comando.
Quase desnecessário assinalar que somos país de índole pacífica e não há qualquer intenção de desenvolver mísseis balísticos de longo alcance com finalidade bélica.
LÉO DE ALMEIDA NEVES é ex-deputado federal (PMDB/PR) e ex-diretor do Banco do Brasil


