A laicidade do Estado é uma das conquistas da civilização Ocidental e se disseminou pelo mundo com a Revolução Francesa, deflagrada em 1789. Hoje há somente dois países oficialmente religiosos: o Vaticano, sede da Igreja Católica, e a República Fundamentalista do Irã, muçulmano.

Os Estados Unidos, cuja independência aconteceu antes da Revolução Francesa, nasceram laicos. No Reino Unido, Itália e Argentina, entre outros, o estado se comporta como laico apesar da preferência a algum credo religioso. A Constituição brasileira prevê a liberdade de consciência embora registre ter sido elaborada “sob a proteção de Deus”.

A distinção entre crença religiosa e ações de governo está sendo pisoteada pelo presidente Jair Bolsonaro, que, parodiando sua performática ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou que “o estado é laico, mas eu sou terrivelmente cristão” (a ministra usou o termo “evangélica”).

A campanha a ser deflagrada pelo ministério sob o comando de Damares para prevenir a gravidez precoce prega a abstinência sexual, um dos preceitos religiosos mais enraizados – e desrespeitados. O ministério alega que o início precoce da vida sexual leva ao “afastamento dos pais, escola e fé”, além de induzir a “comportamentos antissociais e delinquentes”. O ministro da Saúde, Henrique Mandettal, rebate: “Não se pode minimizar a discussão e dar ênfase só para isso. É um problema complexo.”

O próprio presidente, que se diz católico, dá demonstrações de sobra por sua predileção pelo público evangélico, participando de marchas e cultos, fazendo transmissões ao vivo ao lado de pastores neopentecostais, como Valdemiro Santiago, especialista em “ungir” canetas, sabonetes e vassouras, e oferecendo a Edir Macedo a sua direita no camarote oficial das comemorações do Sete de Setembro. Bolsonaro propôs, entre outras benesses, isentar as igrejas do pagamento de impostos e taxas e conceder subsídio à tarifa de energia elétrica. Até agora, ficou no blábláblá, pois suas intenções esbarram na legislação. Mas ele pode se gabar de ao menos ter tentado...

icon-aspas “Ao mesmo tempo em que se insurge contra o “aparelhamento político” da arquidiocese de Londrina, Barros se engaja na utilização das igrejas evangélicas para a coleta de assinaturas necessárias à formalização do partido (...) Aliança pelo Brasil”

Bolsonaristas investiram no ano passado contra o arcebispo de Londrina, dom Geremias Steinmetz, acusando-o de mancomunar-se com o PT e propagar “doutrina esquerdista” nas publicações da arquidiocese. Leão XIII, autor em 1891 da primeira encíclica de cunho social da Igreja Católica, a Rerum Novarum (“Das coisas novas”) – outras 18 a seguiram –, deve ter se revolvido na cripta do Vaticano...

O levante bolsonarista adotou o slogan “Tirem o PT do altar” e propôs uma petição ao núncio apostólico, dom Giovanni d’Aniello. Lançada em 2 de julho na internet, a petição obteve 3,2 mil assinaturas, o equivalente a 1% dos católicos londrinenses.

Para dar sobrevida ao movimento rejeitado pela maioria esmagadora dos católicos, seus organizadores e o deputado federal bolsonarista Filipe Barros, que é evangélico, pediram pessoalmente ao núncio medidas contra o arcebispo. “Acompanhei quatro integrantes do grupo que levaram a preocupação do aparelhamento político na arquidiocese”, explicou o deputado à “Folha de Londrina” de 24 de outubro.

Ao mesmo tempo em que se insurge contra o “aparelhamento político” da arquidiocese de Londrina, Barros se engaja na utilização das igrejas evangélicas para a coleta de assinaturas necessárias à formalização do partido pretendido por Bolsonaro, Aliança pelo Brasil.

No domingo,26, o pastor Emerson Patriota, da Igreja Presbiteriana Central de Londrina, exortou do púlpito os fiéis a aderirem ao partido de Bolsonaro. Frequentador dessa igreja, Barros admitiu ao “Estado de S.Paulo” ter sido quem orientou o pastor e que centenas de assinaturas foram coletadas. Havia cartorários à disposição para legitimar as assinaturas. Do lado de fora, um ônibus estampava uma foto de Barros, pré-candidato a prefeito, ao lado de Bolsonaro.

Em coerência com a cruzada contra o “aparelhamento político” da arquidiocese de Londrina e em fidelidade ao mandamento divino de “não tomar seu Santo nome em vão”, Barros e seu grupo deveriam lançar a campanha “Tirem Bolsonaro do templo!”. Ou proclamar – aleluia! - a República Fundamental Bolsonarista do Brasil, na qual só será permitido expressar seu credo aquele que cultuar Bolsonaro. Acima de tudo e todos.

José Antonio Pedriali, jornalista

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