ESPAÇO ABERTO - 'Tirem Bolsonaro do templo!'
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Espaço Aberto 
A laicidade do Estado é uma das conquistas da civilização Ocidental e se disseminou pelo mundo com a Revolução Francesa, deflagrada em 1789. Hoje há somente dois países oficialmente religiosos: o Vaticano, sede da Igreja Católica, e a República Fundamentalista do Irã, muçulmano.
Os Estados Unidos, cuja independência aconteceu antes da Revolução Francesa, nasceram laicos. No Reino Unido, Itália e Argentina, entre outros, o estado se comporta como laico apesar da preferência a algum credo religioso. A Constituição brasileira prevê a liberdade de consciência embora registre ter sido elaborada “sob a proteção de Deus”.
A distinção entre crença religiosa e ações de governo está sendo pisoteada pelo presidente Jair Bolsonaro, que, parodiando sua performática ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou que “o estado é laico, mas eu sou terrivelmente cristão” (a ministra usou o termo “evangélica”).
A campanha a ser deflagrada pelo ministério sob o comando de Damares para prevenir a gravidez precoce prega a abstinência sexual, um dos preceitos religiosos mais enraizados – e desrespeitados. O ministério alega que o início precoce da vida sexual leva ao “afastamento dos pais, escola e fé”, além de induzir a “comportamentos antissociais e delinquentes”. O ministro da Saúde, Henrique Mandettal, rebate: “Não se pode minimizar a discussão e dar ênfase só para isso. É um problema complexo.”
O próprio presidente, que se diz católico, dá demonstrações de sobra por sua predileção pelo público evangélico, participando de marchas e cultos, fazendo transmissões ao vivo ao lado de pastores neopentecostais, como Valdemiro Santiago, especialista em “ungir” canetas, sabonetes e vassouras, e oferecendo a Edir Macedo a sua direita no camarote oficial das comemorações do Sete de Setembro. Bolsonaro propôs, entre outras benesses, isentar as igrejas do pagamento de impostos e taxas e conceder subsídio à tarifa de energia elétrica. Até agora, ficou no blábláblá, pois suas intenções esbarram na legislação. Mas ele pode se gabar de ao menos ter tentado...
“Ao mesmo tempo em que se insurge contra o “aparelhamento político” da arquidiocese de Londrina, Barros se engaja na utilização das igrejas evangélicas para a coleta de assinaturas necessárias à formalização do partido (...) Aliança pelo Brasil”
Bolsonaristas investiram no ano passado contra o arcebispo de Londrina, dom Geremias Steinmetz, acusando-o de mancomunar-se com o PT e propagar “doutrina esquerdista” nas publicações da arquidiocese. Leão XIII, autor em 1891 da primeira encíclica de cunho social da Igreja Católica, a Rerum Novarum (“Das coisas novas”) – outras 18 a seguiram –, deve ter se revolvido na cripta do Vaticano...
O levante bolsonarista adotou o slogan “Tirem o PT do altar” e propôs uma petição ao núncio apostólico, dom Giovanni d’Aniello. Lançada em 2 de julho na internet, a petição obteve 3,2 mil assinaturas, o equivalente a 1% dos católicos londrinenses.
Para dar sobrevida ao movimento rejeitado pela maioria esmagadora dos católicos, seus organizadores e o deputado federal bolsonarista Filipe Barros, que é evangélico, pediram pessoalmente ao núncio medidas contra o arcebispo. “Acompanhei quatro integrantes do grupo que levaram a preocupação do aparelhamento político na arquidiocese”, explicou o deputado à “Folha de Londrina” de 24 de outubro.
Ao mesmo tempo em que se insurge contra o “aparelhamento político” da arquidiocese de Londrina, Barros se engaja na utilização das igrejas evangélicas para a coleta de assinaturas necessárias à formalização do partido pretendido por Bolsonaro, Aliança pelo Brasil.
No domingo,26, o pastor Emerson Patriota, da Igreja Presbiteriana Central de Londrina, exortou do púlpito os fiéis a aderirem ao partido de Bolsonaro. Frequentador dessa igreja, Barros admitiu ao “Estado de S.Paulo” ter sido quem orientou o pastor e que centenas de assinaturas foram coletadas. Havia cartorários à disposição para legitimar as assinaturas. Do lado de fora, um ônibus estampava uma foto de Barros, pré-candidato a prefeito, ao lado de Bolsonaro.
Em coerência com a cruzada contra o “aparelhamento político” da arquidiocese de Londrina e em fidelidade ao mandamento divino de “não tomar seu Santo nome em vão”, Barros e seu grupo deveriam lançar a campanha “Tirem Bolsonaro do templo!”. Ou proclamar – aleluia! - a República Fundamental Bolsonarista do Brasil, na qual só será permitido expressar seu credo aquele que cultuar Bolsonaro. Acima de tudo e todos.
José Antonio Pedriali, jornalista


