O Pontal do Paranapanema voltou ao noticiário nacional. A mobilização social e atuação política do MST e de outros grupos que reivindicam terra na região, preocupam dirigentes governamentais, políticos e lideranças de movimentos sociais. Despertam temor e fúria em fazendeiros e proprietários de grandes áreas. Desafiam os ''intérpretes do Brasil'' nas universidades, na imprensa, nas embaixadas. Inquietam técnicos e órgãos de planejamento, organizações não-governamentais, cidadãos pelos campos e construções. Como o Pontal ficou assim? Por que a tensão e o conflito?
No passado próximo, estão as consequências sociais e ambientais do modelo de desenvolvimento econômico implementado pelo regime militar. No Pontal, os efeitos mais dramáticos, presentes ainda hoje, foram resultado da construção de usinas hidrelétricas e da expansão da lavoura canavieira pelo vale afora, em busca de fontes de energia. No passado longínquo, houve um devastador processo de ocupação das terras que integravam as reservas naturais da Lagoa São Paulo, do Pontal e Morro do Diabo. O patrimônio ecológico, científico e cultural, além de potencial turístico, foi solapado pelo fogo da ganância econômica e pela água da ambição política.
Na década de 1990, o MST iniciou a mobilização de arrendatários, bóias-frias, assalariados e desempregados. Hoje, há vários assentamentos ocupando milhares de hectares e abrigando centenas de famílias. O governo estadual quer regularizar a situação fundiária na região, retomando terras devolutas e abrindo a possibilidade de sua aquisição mediante a venda aos atuais ocupantes. Espera, assim, estabelecer um clima de segurança e tranquilidade social capaz de incentivar as atividades econômicas e atrair novos investimentos no Pontal. Enfim, dar vida nova para essa área degradada e para a população espoliada pela violência dos homens contra a natureza e contra seus semelhantes.
A redenção dos pobres da terra ganhou novo alento com a volta da atuação de José Rainha, dirigente do MST, no Pontal. Enfrentando preconceitos, acusações, desconfianças e ameaças de todo tipo, Rainha organiza um novo e grande acampamento. Está reunindo os desvalidos da sorte e as vítimas recentes da inépcia governamental. Na anunciada nova Canudos, os solos calcinados, a fauna e a flora dizimadas, a extinta população das tribos caiuás e caingangues, poderiam ressurgir das cinzas? José Rainha e seus companheiros apostam na nova era política do governo Lula.
A superação da lógica do conflito e da violência social é um desejo esperado e necessário. Integrar o Pontal do Paranapanema ao conjunto da economia nacional, preservando os vestígios das reservas naturais, implica, também, em compreender os mecanismos da criação dessa que foi, até agora, a terra prometida do erro. O que ela recebeu, o que ela pode dar?
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor no departamento de História da UNESP em Assis (SP)

mockup