Dia desses parei para pensar e lembrar de meus saudosos tempos de garoto. Viver era bom. Não que agora não o seja, mas hoje em dia a vida é muito rasa, rápida e sem graça mesmo. Lembro-me dos almoços aos domingos com a família em casa e não no shopping, disputando mesas a tapas. Lembro-me do carteiro. Quando ele chegava era para trazer cartas de verdade. Fossem com notícias boas ou não, o que mais importava eram as linhas escritas à mão por alguém que dava-se ao trabalho de primeiramente rascunhar, depois passar a limpo para finalmente andar até o correio e enviar. A correspondência agora trata-se de contas a pagar ou pior, multas da ''indústria'' de multas de trânsito.
Antigamente, como a vida passava lentamente, todos tinham tempo. Os pais tinham tempo para os filhos. Hoje comunicam-se por e-mail mesmo morando sob o mesmo teto. E como não possuem tempo, acham que a obrigação de dar educação aos filhos é da escola. Tanto que vemos alunos de colégios particulares de alto padrão agredindo professores a tapas. Em se tratando do ensino público fundamental e médio, observamos suas mazelas, chegando-se ao absurdo de criar cotas para que o semi-alfabetizado possa adentrar à universidade pública contribuindo para a queda do nível de ensino.
Se pelo sistema de cotas também não dá, restam as universidades particulares. Nestas, até vestibular mudou de nome. Agora é ''teste seletivo''. Tem universidade fazendo teste seletivo diário. Ou seja, o cidadão vai até lá, responde meia dúzia de questões e começa o curso superior no mesmo dia. Atualmente, não questionar onde o sujeito se formou pode ser risco de vida. No ensino superior, o professor com título de doutor ganha salário de ''tia''. Outrora respeitado e admirado, pode ser escorraçado dentro da sala de aula pelos alunos por tentar dar uma aula de qualidade, já que estudar ''cansa'' e aprender é ''missão impossível''.
Há banalização de tudo, até do Natal. Antigamente nesta época contentava-nos as lâmpadas coloridas colocadas de maneira romântica em jardins ou postes, trazendo-nos um calor interno e uma sensação de paz. Hoje há a necessidade da construção de árvores gigantescas com milhões de lâmpadas, bichinhos robotizados, um monte de chatos fazendo filas (malditas filas do shopping...) para tirar fotografias digitais dos filhos juntos à parafernália. Os funcionários obrigados a ser palhaços com o ridículo chapéu vermelho forrado num verão de 40 graus. Mas, apesar do calor, tudo é tão frio! As pessoas gastam milhares de reais no celular de última geração para o filho de cinco anos exibir na escolinha. Pra quê? Tudo tão sem graça, frio, distante...
Prefiro andar na contramão do mundo. Lembrei-me de uma cena do filme ''O Expresso da Meia-Noite'' em que o sujeito no meio de um bando de loucos andando em círculos, recusa-se a acompanhá-los e começa a andar no sentido oposto para não ser apenas mais um na multidão e enlouquecer também. Para ele deu certo. Mesmo que seja muito difícil, acredito que andar na contramão, não se conformar e tentar fazer diferença é o único caminho para livrar-se da mesmice enfadonha, evitar que a vida passe em branco e tentar (pelo menos tentar) ser feliz. E ser feliz vale a pena.

JOSÉ LUCIANO TAVARES DA SILVA é professor universitário em Londrina

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