ESPAÇO ABERTO - Tecnologias próprias: um caminho a ser trilhado


Lucas V. de Araujo
Lucas V. de Araujo

A pandemia trouxe uma sensação de que a economia entrou em colapso e que os negócios estão de mal a pior. Essa mentalidade, no entanto, não se sustenta se observamos o movimento das empresas inovadoras e desenvolvedoras de tecnologia.


Passados apenas dois meses de 2021, 13 empresas abriram capital na Bolsa de Valores brasileira (B3). Melhor resultado dos últimos 11 anos, perdendo apenas para 2020. Dentre as empresas que mais levantaram capital chama a atenção a Bemobi Mobile Tech, que normalmente faz parceria com grandes operadoras de telefonia para oferecer serviços de mídia móvel e entretenimento.


O caso da Bemobi é emblemático porque mostra uma tendência no mercado brasileiro e mundial: crescimento de empresas que desenvolvem tecnologias próprias, isto é, inovam a partir de um produto ou serviço criado pela própria empresa.


Inovar por meio de cópia é algo comum no mercado. Tem até um termo: Copycat. Inovar assim não é um problema, mas está longe de ser uma estratégia vencedora. Nenhuma das maiores empresas do mundo chegou onde chegou copiando.


Quando voltamos nossos olhos pra Londrina e região, vemos muitos exemplos bem-sucedidos dessa tendência. Um deles é a Sotran, firma de logística, que vem crescendo de forma exponencial desde que recebeu aporte de origem norte-americana em 2016. Os recursos foram usados em tecnologia para aprimorar processos e oferecer novos serviços.


Recentemente a empresa recebeu R$ 100 milhões em investimento de um fundo brasileiro e novos aportes estão no radar da firma, que não descarta, inclusive, abertura de capital para financiar a expansão.


Outro bom exemplo é a unico IDtech, que se utiliza da identidade digital para facilitar a relação entre empresas e pessoas. A empresa teve origem na Acesso Digital, que adquiriu a startup londrinense Arkivus em 2017 por conta da ferramenta de biometria facial, atualmente uma das principais tecnologias da unico.


As firmas nascidas por aqui prosperaram porque inovaram de verdade. Além do fato de que o Copycat não traz diferenciação no mercado altamente competitivo atual, a tecnologia criada pelo empreendedor está mais adaptada ao mercado local e suas peculiaridades.


Na economia digital grande parte das soluções provém dos grandes payers mundiais, como Estados Unidos e China, os quais guardam grandes diferenças em relação ao jeito de fazer negócios no Brasil. Por mais que a linguagem binária das máquinas não esteja preocupada se o idioma local é português, inglês ou mandarim, as leis e costumes são outros.


Existem ainda outros fatores relevantes para criar a própria tecnologia, sendo um deles mão de obra altamente qualificada. Não por acaso, os maiores polos de inovação e desenvolvimento de tecnologia do país estão próximos de universidades de destaque.


Nosso ecossistema nesse sentido contribuiu bastante, mas podemos avançar com as universidades sendo catalizadoras do desenvolvimento, algo indispensável para que o Vale do Silício chegasse ao nível que está. 


Lucas V. de Araujo: PhD em Comunicação e Inovação, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e mentor Founder Institute. Autor de “Inovação em Comunicação no Brasil”, pioneiro na área.

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