O prefeito Nedson Micheleti declarou a utilidade pública do terreno do antigo ''Colossinho'' para construir o Teatro Municipal. Fez essa declaração por decreto absolutamente legítimo, sem qualquer mácula. Ninguém, com argumento válido, pode questionar a legalidade desse decreto. Por outro lado, há o acerto na escolha do lugar, pois esse terreno é o único livre na área central capaz de comportar o que na verdade será um complexo cultural, com uma sala principal para cerca de 2 mil pessoas, salas para escolas de teatro, dança, música, etc., além de espaços para cafés, biblioteca, videoteca, dentre outros, devendo ainda ser a sede da Secretaria Municipal de Cultura.

O terreno do ''Colossinho'' é apropriado para o teatro porque se encontra num local que precisa ser potencializado positivamente. Não há dúvidas de que um teatro, com sua vocação agregadora, significará para o entorno novos investimentos em bares, restaurantes e hotéis, com a valorização de todos os negócios já instalados. Só haverá impacto positivo para a vizinhança. A paisagem tornar-se-á mais bela e atrativa e, aliada às novas atividades e eventos, a economia local se fortalecerá, proporcionando novos postos de trabalho, os quais se somarão àqueles que serão gerados pelo próprio teatro.

Não há, por tudo isso, em relação ao terreno do ''Colossinho'', como comparar um teatro com um Wal-Mart, ainda que o patrimônio deste corresponda a 2,5% do PIB americano e compre cerca de 10% de tudo o que a China exporta. Com esse potencial todo, naquele local, esse hipermercado será fonte de desagregação. Os poucos subempregos que criará não serão suficientes para suprir os empregos que desaparecerão ante as dificuldades que causará às lojas de tintas, lustres, material escolar, supermercados e outros estabelecimentos de pequeno porte localizados nas proximidades. Imaginem o trânsito, a carga e descarga.

Muito mais apropriado para um hipermercado como o Wal-Mart é instalar-se à margem de uma das vias amplas que existem em Londrina e, neste sentido, será bem-vindo à cidade. O Shopping Catuaí, inicialmente pensado para ocupar um quarteirão na Avenida Higienópolis, terminou sendo construído num local à margem de uma rodovia em que pôde se expandir e continua se expandindo. Se estivesse no aludido quarteirão, todo o prédio não bastaria sequer para estacionar os carros das pessoas que atualmente o frequentam.

Enfim, mais razões existem para defender o teatro no terreno do ''Colossinho''. Oportunamente poderei voltar a elas. Cabe-me, no entanto, um último alerta: Londrina merece respeito e não pode aceitar, e não aceita, que forasteiros, em nome ou não de quem quer que seja, com interesses meramente econômicos, levem sua população ao conflito. Não aceitamos que alguém pretenda mercadejar com a cultura e fazê-la vil moeda de troca em um escambo que interessa apenas a meia dúzia de poderosos, para quem tudo se pode em favor de seus lucros, ou até mesmo de oportunismos eleitoreiros. E como se tudo isso não bastasse, frise-se: não se pode pensar cultura assim como saúde e educação apenas segundo a lógica do mercado.

CARLOS ROBERTO SCALASSARA é procurador-geral do Município de Londrina

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