O conceito de sustentabilidade tem sido erroneamente reduzido à questão ambiental, desconsiderando ou até relegando a segundo plano o compromisso com a dimensão social. Isso se deve a pelo menos dois motivos: primeiro à importação do discurso do primeiro mundo, que já superou os problemas sociais mais graves e, têm na questão ambiental o seu grande desafio, algo bem diferente dos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, que ainda tentam superar a pobreza e a miséria extrema. O segundo motivo decorre de ser mais fácil conseguir a adesão da população para problemas ambientais, que são facilmente percebidos como coletivos, do que para a pobreza que ainda é entendida por muitos como uma questão individual.
  Ademais, mudanças sociais profundas obrigam a transformações institucionais, o que certamente gera a antipatia e resistência dos grupos mais privilegiados. É mais fácil conseguir a simpatia da população em defesa da preservação de florestas e reciclagem de lixo, do que apoio a programas de transferência de renda cotas, ou em defesa de direitos sociais.
  Não se pretende aqui inverter a hierarquia de prioridades, mas trabalhar simultaneamente a dimensão social, ambiental e econômica, já que, estas se encontram interligadas por elos de interdependência indissociáveis. Essa preocupação já havia sido expressa em 1990 por John Elkington, quando este formulou o modelo clássico de desenvolvimento sustentável, que pressupõe um equilíbrio entre os três pilares: o desenvolvimento deve ser viável economicamente, socialmente justo e ambientalmente equilibrado.
  Contudo, uma análise mais cuidadosa obriga a se avançar em outras frentes incorporando novas dimensões, tais como:
  Dimensão cultural - Em 2001, John Hawkes propôs ‘‘o quarto pilar da sustentabilidade: a função essencial da cultura no planejamento público’’. Esta dimensão busca preservar hábitos, valores e costumes de cada povo, fortalecendo e defendendo o multiculturalismo, a emancipação, a diferença e a heterogeneidade, combatendo qualquer forma de colonização ou ideia de superioridade cultural.
  Dimensão espacial - Preocupa-se com a criação de condições para que o desenvolvimento possa se dar de forma geograficamente descentralizada, respeitando a estrutura física e as vocações de cada região, assegurando-lhes vigor e autonomia, o que passou a ser conhecido por empoderamento local. Este posicionamento visa evitar as migrações e a concentração de feudos de desenvolvimento e de poder, em apenas algumas regiões.
  Dimensão política - Refere-se a um dos maiores desafios para um desenvolvimento realmente sustentável, recai sobre a esfera política e na necessidade de se avançar no plano democrático, num modelo de governança participativa capaz de criar e aprimorar as instituições para que possam ser cada vez mais fortes, transparentes, participativas e representem os diferentes interesses da sociedade e dos demais sistemas de vida presentes no planeta. O ideal democrático deve transcender o universo estatal e invadir empresas, sociedade civil e demais instâncias sociais, exatamente o inverso dos projetos hierárquicos, centralizados, autoritários e personalistas que predominam no mundo atual.
  Todas estas dimensões devem ser vivenciadas considerando que não existimos, mas coexistimos numa rede de vida feita de elementos interdependentes, em que basta a crise num destes elementos para comprometer a sustentabilidade como um todo. Temos que ultrapassar a visão reducionista, individualista e hierárquica predominante e avançar para uma perspectiva de conjunto, complementaridade e cooperação, única forma de garantir a vida em suas distintas expressões, tanto na atualidade como no futuro.

LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS
é doutor em Ciências Sociais e professor do
mestrado em Gestão e Sustentabilidade da
Universidade Estadual de Londrina

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