O que é sagrado e o que é profano? Se as coisas ditas mundanas são passageiras na relação com a eternidade, não deixam de ser sagradas enquanto duram, porque delas se vale o homem para a sua vivenciação terrena. Então, nada é isoladamente sagrado, nem na terra nem nos céus, porque tudo é sagrado.
Ao particularizar algo como sagrado, o homem estabelece o separatismo com o todo restante. Essa separação é que alimenta a crença no distanciamento entre o homem e Deus, e tal não existe porque Deus e o homem e todas as coisas integram o sagrado conjunto cósmico.
Se o homem deseja mesmo prostrar-se em reverência ante o que supõe particularmente sagrado, deve reverenciar também a si próprio.
As pessoas se emocionam diante dos chamados fenômenos sobrenaturais - como uma cura inexplicável, aparições misteriosas, estranhos sinais, a sintonia com as regiões do invisível. Já os milagres mais flagrantes, que da mesma forma ocorrem, estes a maioria dos homens não percebe.
A natureza divina expôs todos os grandes fenômenos, mas o homem só se impressiona com aqueles que são envoltos em mistério ou que tenham ligação com crença e religiosidade.
Para ele, o que extrapola os sentidos é milagre. Já o germinar de uma semente e o desabrochar de uma flor - que são milagres muito mais maravilhosos - afiguram-se para ele apenas como um acontecimento meramente genético.
O milagre - se é que temos de denominá-lo assim - manifesta-se a todo momento. Basta olhar ao redor e assistir ao fenômeno da vida. O simples ato de respirar é um milagre que se manifesta permanentemente, mesmo enquanto dormimos ou estamos inconscientes.
A suposição do sagrado cria a prostração ante coisas às vezes pequenas diante do macromilagre diário que nos envolve, que interage conosco e com o qual interagimos.
Se o homem reverencia a morte, que é o portal para o renascer e algo que se apresenta como um mistério e que ele não decifra com clareza, deve reverenciar também a vida, que é um milagre infinitamente maior.
A sabedoria está no louvor e na contemplação da própria vida, presente em todo o universo e que pulsa até na aparente inércia de uma pedra.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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