ESPAÇO ABERTO - Sobre praças
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de junho de 2013
Humberto Yamaki 
As praças em Londrina são quase invisíveis. As raras notícias na mídia resumem-se à sujeira de pombos, queda de árvores e reforma de banheiro. Não se faz discussão ou reflexão sobre o caráter e qualidade de espaços públicos.
O fato é mais grave quando tratamos da Marechal Floriano, a antiga Praça da Matriz, que deveria ser o espaço símbolo da cidade. A Praça da Matriz foi localizada num ponto central e elevado na planta inicial projetada pelo topógrafo russo Alexandre Razgulaff da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) em 1932. O traçado atual da praça, considerado por alguns como sendo em forma de bandeira inglesa, surgiu em 1943. O noticiário da época descreve uma praça de traçado moderno com jardins floridos e um monumental Altar da Pátria no seu centro. Árvores não foram plantadas no local porque, de natureza bastava a floresta que circundava a nascente cidade.
Revisito o local. Num feriado nublado, o local está quase deserto e nada funciona nas redondezas. Tento achar marcas que possam revelar a passagem do tempo. O traçado em forma de asterisco se mantém íntegro graças aos alertas a cada tentativa de abertura de rampas e caminhos que desfiguram o formato original. A placa do Altar da Pátria que trazia gravada: Ao civismo do povo de Londrina. Homenagem da Prefeitura Municipal. 7 de Setembro de 1943 foi roubada anos atrás e não recolocada. Um quarto de espaço nobre da praça foi ocupado por um banheiro público. Do mobiliário urbano, bancos bola originais foram substituídos por similares, luminárias foram trocadas por outras em cimento pintado e o piso agora é de paver. Resultado: 70 anos depois da grande reforma de 1943, a Praça Marechal Floriano expressa fragilmente o tempo. Exceção às árvores de porte que hoje são marcas do local. Como afirmou o antropólogo Levi Strauss nos anos 30, depois de uma visita à região: as coisas por aqui parecem feitas para durarem pouco. Semelhante a uma grande feira, brilhante no dia da inauguração e que esmaece rapidamente para ser substituída a cada nova impaciência.
Mudo de lugar e país. Em recente viagem visitei a Plaza de Armas em Lima no Peru. O local foi denominado de Corazón de Lima pelo cronista Galvez (1943). A praça foi criada em 1535 como espaço principal de uma cidade colonial projetada pelos espanhóis em malha xadrez. Passados 468 anos, o local apresenta grande vitalidade, trazendo lições sobre o caráter e qualidade de espaços públicos em nossas cidades.
A Plaza de Armas é o símbolo da cidade de Lima e reforça a autoestima da população. A praça em si resume-se a um grande retângulo cercado de edificações públicas e religiosas. No entanto, traz atrativos que resultam em grande frequência de pessoas, trazendo vitalidade ao local. No centro da Praça existe uma fonte de ferro do século 17 com chafarizes que funcionam e são um oásis numa cidade onde quase nunca chove. O mobiliário urbano de ferro fundido e madeira é datado e resistente ao vandalismo. Os canteiros floridos e bem cuidados, o chão de pedras sem sujeira refletem uma manutenção constante.
Ao redor da Plaza de Armas estão localizadas edificações chaves como a Catedral, o Palácio do Governo e a prefeitura. A atratividade do local é reforçada ainda pelas galerias, Museus e pequenas lojas que se estendem pelas imediações.
Qualidades como vitalidade, qualidade do traçado e do mobiliário, atratividade, durabilidade, robustez, manutenção e segurança são lições que podemos apreender da praça central de Lima.
Londrina poderia começar a discutir sobre o caráter e qualidade dos espaços públicos, a iniciar pela Praça Matriz e seus arredores.
HUMBERTO YAMAKI
é coordenador do Laboratório de Paisagem
da Universidade Estadual de Londrina
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