“Um picadão escuro e barrento, cheio de tocos e buracos...” É o relato da caravana da CTNP (1929) sobre o caminho de Jataí ao limite de terras da Companhia. Veredas, picadas e picadões constituíam uma rede complexa de caminhos no Norte do Paraná. Consideramos veredas os “atalhos” indígenas, picadas os caminhos de tropeiros e, finalmente, picadões as rotas oficializadas. São poucos os registros e esparsos os vestígios. Todavia, permanecem forte na história dos lugares e no imaginário da população.

Sobre os tópicos a explorar e interpretar, Claval (1999) afirma ser importante identificar: “Como as pessoas representam e chamam os lugares e guardam na memória. Como concebem suas relações com o meio. Como se orientam. No que se baseiam as identidades coletivas. Os princípios que estruturam o espaço e transformam em algo legível.”

Um mapa do Paraná do Novo Atlas (1927) traz poucas indicações. Justifica: ”São mappas sem pormenores demasiados que tornem de difícil leitura. Quem consultar não se perderá em pormenores que, em regra, só concorrem para eclipsar as noções de maior importância”. Entre as poucas indicações, a localização de tribos Coroados e Caiaias nas terras devolutas de concessão. Não havia indicação da existência de vereda, picada ou picadão.

As trilhas indígenas, consideradas “boas veredas”, foram utilizadas na expedição para abrir uma picada de Jatahy em direção ao Pirapó em 1862 (Wachowicz,1987). Ainda segundo o autor, o norte americano cartógrafo John Henry Elliott seguia informações de indígenas para mapear os locais ainda não vistos.

Num outro mapa, da Zona Explorada para a Extensão Proposta da Ferrovia São Paulo Paraná foi produzido pela Companhia de Terras Norte do Paraná CTNP (1927). Apresenta a ferrovia projetada entre Cambará e Jatahy, cidades existentes e a localização desejável de povoados e estações. Uma estrada de automóveis acompanha os trilhos. E, o mais importante, indica os mule tracks (caminho de tropas).

No pouco conhecido Mapa das Terras de Beltrão (1927), é possível identificar uma Estrada Carroçável que parte da margem oposta a Jatahy e bifurca logo depois. Um dos caminhos acompanha o ribeirão Engenho de Ferro e logo adiante seguir o rumo do espigão Três Boccas Jacutinga. O segundo caminho atravessa os afluentes da margem esquerda do Ribeirão Três Boccas e desce em diagonal até a foz do ribeirão Esperança. Este último, apesar de não explicitado no mapa, é o original Velho Picadão Três Boccas.

Finalmente, a Planta Geral dd CFSPP (MacDonald & Gibbs Co. Engineers, 1928-32) apresentava, por força de contrato, a faixa de terras ao longo dos trilhos. Mostra dois caminhos contornando a serra além Tibagi: 1. A Estrada de Autos partindo de São Pedro de Alcântara, margem oposta de Jatahy e 2. O *Velho Picadão Três Boccas (trecho parcial) seguindo ribeirão Engenho de Ferro (Yamaki, 2017).

Aqui vale uma ressalva. O *Velho Picadão Três Boccas indicado por MacDonald é só uma parte do Picadão original. Segue o ribeirão Engenho de Ferro. Porém, em certo momento avança rumo ao espigão. Encontra a ferrovia projetada no km 200 e a Estrada de Autos MacDonald km 14,50, no atual Jardim Santa Paula em Ibiporã. Distancia-se, portanto, do original Velho Picadão Três Boccas.

É possível afirmar que, pelas indicações de altitude e anotações de campo, o picadão utilizado pela expedição de Antonio Moraes Barros (CTNP, 1927) foi a “versão reduzida MacDonald” do Velho Picadão Três Boccas. O mesmo na expedição de 1929.

Da próxima vez que passar por caminhos da região, vale tentar identificar bons panoramas. Poderá encontrar vestígios de veredas e aldeamentos indígenas. Em ritmo lento de tropas, vale observar os caminhos sinuosos a meia encosta, as invernadas, a demarcação de limites e marcos visuais pontuais. Identificar, resgatar e reinterpretar o caráter da paisagem de antigos caminhos.

Humberto Yamaki, coordenador do LabPaisagem UEL

mockup