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Londrina

Opinião

m de leitura Atualizado em 03/06/2022, 20:21

ESPAÇO ABERTO - Sobre o trabalho intelectual

Estar atento ao seu tempo, com a emoção e a razão buscar entender a realidade que o cerca, como se produz a realidade

PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de maio de 2022

Paulo Bassani é sociólogo
AUTOR autor do artigo

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O intelectual deve se colocar hoje na retaguarda dos movimentos, dos movimentos em geral da sociedade. Observando e estabelecendo as leituras de realidade que estão, embrionariamente, sendo costuras a todo o momento. Pois algo que possa corresponder a uma ideia de realidade é o fato de sempre tentar fixar o que se move. Pois como dizia Cândido Grzybowski, “esta é a sina de quem pesquisa: fixar com maior sentido possível o que se move”. E os movimentos fenomenais das ações humanas ocorrem o tempo todo desafiando nossa leitura.

Para tanto, o intelectual necessita desenvolver a capacidade da clarividência, de ver entender com maior claridade possível que nada mais é senão a capacidade de ler o presente e, a partir desta leitura, visualizar o futuro. E fazê-lo de forma científica, em defesa da vida, pela leitura, pela concentração e pelo pensar. Nos movimentos sociais, os intelectuais nele envolvidos, concentram-se na construção, crítica e transformação do conhecimento. Isso, em geral, ajuda o movimento avançar. A presença dos intelectuais, sobretudo os pseudo intelectuais, está repleta de ambiguidades: desde a tendência a lhes entregar todo o poder sobre a informação, comunicação, criação e transformação de conhecimentos a seu escopo ideológico. E, até mesmo, partilhar da desconstrução de conhecimentos já adquiridas e comprovados eticamente pela civilização.

O intelectual precisa entender que uma das tragédias da filosofia, política e ciência moderna foi a separação demasiadamente radical do problema do conhecimento e da verdade (epistemologia) com respeito ao problema do conviver e da felicidade (ética), entre razão e emoção, entre a cultura e a natureza.

O trabalho intelectual está situado na função de pesquisar, problematizar, desenvolver as perspectivas, criação, produção de conhecimento, assim como escrever e comunicar esses resultados, entre outras. Uma das tarefas intelectuais de hoje é lembrar que somos seres racionais e sensíveis, imaginativos e criativos, de natureza humano e natureza temos que ter sempre presente este equilíbrio para que a vida possa acontecer.

Estar atento ao seu tempo, com a emoção e a razão buscar entender a realidade que o cerca, como se produz a realidade. Temos o dever de produzir coisas belas como dizia José Saramago, mas nem sempre conseguimos analisar coisas belas, pois há muita podridão em curso. O fato de distinguir mais claramente e com maior frequência estas facetas da realidade nos ajuda a compreender melhor a unidade real entre subjetividade e objetividade, o material e o imaterial e suas complexas inter-relações.

Isto se fortalece na medida em que há forte tendência, das pessoas no geral, de simplificar e aceitar a realidade com base apenas nas suas experiências. Isso se faz a todo o momento: É mais fácil, simples, realizável, claro e rápido ver a realidade como simples e vê-la como até agora outros observaram do que procurar entendê-la e desvendá-la com toda sua complexidade. É mais cômodo pensar que qualquer realidade tenha apenas uma ou duas causas, uma ou duas explicações, respostas simplistas, rasas.

A reflexão crítica, no qual o intelectual deve se inserir, permite construir novos saberes, mapas, abertos e flexíveis, pluralistas que permitirão encontrar outras maneiras de entender, explicar e enfrentar a realidade. Refletir criticamente sobre nossa experiência passada, presente e, criativamente, imaginar novas maneiras de olhar e construir a realidade e seus desdobramentos futuros.

Paulo Bassani é sociólogo, escritor e professor universitário

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