Um dos temas mais repletos de ambiguidades tem sua origem na palavra ''modernidade''. Além de ser utilizada largamente, aparece também dissimulada em outras tantas expressões. Vem quase sempre associada com a idéia de progresso, que os impertinentes tanto gostam de criticar. Os estudiosos da modernidade costumam chamar atenção para os mitos que o verbete esconde. Quando personificada em ações, a modernidade vem sempre relacionada com ruptura e imposição do novo. Imposição que nem sempre agrada todo mundo, principalmente pelo caráter obscuro que a tal modernidade oculta. Falar de coisas modernas, é estar renovando continuamente um conflito, além de ajudar a criar novos mitos.
Ao contrário do que se pensa, no século V já se falava na ''modernidade'', que servia para diferenciar a ordem cristã do passado pagão. Mais tarde, no século XII, o tempo de Carlos Magno também foi considerado como um tempo moderno. Mas é só com o ''Século das Luzes'' (XVIII) que ocorre a fundamentação do tempo moderno. A partir daí, a modernidade passou a relacionar-se com a essência do pensamento científico contemporâneo, as raízes dos ideais políticos, os fundamentos ideológicos de uma nova ordem social que se prolonga até nossos dias.
Através do discurso ''moderno'', muita coisa é prometida para as pessoas. Depois elas descobrem que nem tudo foi como se pensava que seria. Algumas áreas são mais propícias para criar a ilusão da modernidade. A pública é uma delas. A ''modernidade'' sempre favorece mais alguns do que outros e não raras vezes utiliza-se de um discurso agressivo para ser implementada. Sentindo-se prejudicadas, as pessoas reagem agressivamente também. A modernidade não é democrática, e é quase sempre imposta num jogo de habilidade discursiva. Quem impõe, acha que os demais têm que se alinhar ao seu modo de pensar. É quando se estabelece o conflito. Há quem aprecie morar numa aldeia e considera isso a melhor coisa do mundo. Outros preferem um estilo à Nova York, e não entendem como é que pode ter pessoas que não dão o menor valor para isso.
A modernidade às vezes se apresenta com uma feição saudosista. Algumas cidades no Oeste do Paraná se modernizaram ''plantando'' luminárias semelhantes às que se utilizavam no século XIX em outras cidades brasileiras. Neste caso, o antigo também pode parecer moderno. É difícil entender isso, mas tem lá sua lógica. Nada garante que a modernidade da moda permanecerá. Sempre terá alguém querendo impor alguma outra modernidade. Nem sempre o discurso da modernidade se justifica, e muito dinheiro público que é investido em coisas modernas, poderia ser melhor aplicado em coisas mais essenciais. O discurso da modernidade aponta muito para a aparência e enquanto admiramos ''coisas bonitas'' na visão de uns, deixamos de debater sobre coisas essenciais na visão de outros.
A essencialidade, como um dos instrumentos de desconstrução dos mitos criados pela modernidade, precisa ser devidamente exercido pelo cidadão. As cidades crescem, os arquitetos precisam projetar um novo contorno, um viaduto ou uma passarela. Mas quem é que não sabe que tudo às vezes também é acompanhado com muito barulho e vaidades desnecessárias? Faço esta crítica num computador que revolucionou a maneira de escrever e muito me favorece. Por outro lado, é também verdade, que podemos viver bem sem muitas das modernidades que se impõem como essenciais para a nossa vida. É preciso fazer sempre as indagações diante da inevitabilidade que os discursos apresentam. Neste caso, perguntar, parece que continua sendo um procedimento moderno pertinente.
TARCÍSIO VANDERLINDE é professor da Unioeste no campus de Marechal Cândido Rondon

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