O trecho de recente discurso do presidente Lula ''só Deus será capaz de impedir que a gente faça este País ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar'' nos leva a algumas conclusões: Lula cometeu os pecados de afrontar Congresso e o Judiciário e tomar o santo nome em vão, e não é a primeira vez. No lançamento do ''Fome Zero'' já houvera dito ''Se Deus quiser, vamos acabar com a fome neste País''.
Ocorre que muitos acreditam que Deus, sendo todo-poderoso, é orgulhoso, vaidoso e capaz de se melindrar se não for, constantemente, citado, nos discursos e nas conversas, a exemplo de homens que exercem o poder. Só isso poderia justificar as dúvidas levantadas. Será que Deus impediria que se acabe com a fome e se coloque o Brasil numa posição de destaque?
Alguns religiosos, se consultados, talvez sugerissem que as frases mais adequadas seriam: ''Só o diabo ôserá capaz de impedir'' ... e ''Se o diabo não interferir vamos acabar com a fome neste País''.Aliás, no ''confronto'' de Deus e o diabo, há quem dê mais destaque à atuação do segundo.
Na política ocorre situação análoga na disputa de ''situação e oposição''. A situação fazendo o papel de Deus, toda bondade para o povo, mas considerando as propostas da oposição coisas do ''diabo''. Esta, por sua vez, quase sempre fazendo realmente o papel do ''diabo'', torce para que tudo vá mal, cada vez pior, apresentando-se como ''salvadora da pátria'', nas eleições seguintes.
Propostas rejeitadas ontem passam a ser fundamentais hoje. As melhorias no setor de saúde, por exemplo, são desdenhadas. Esquece-se que a falta de recursos de hoje decorre dos desvios e corrupção de ontem. Enfim, fica difícil reconhecer quem é ''Deus'' e quem é ''diabo''.
Voltando às colocações do presidente, vamos refletir sobre o uso abusivo de expressões como: se Deus quiser; foi graças a Deus; vai com Deus; fica com Deus; que Deus abençoe, etc.
Muitos imaginam que Deus seja um velhinho de barbas brancas, que está sobre nas nuvens, sentado num trono, com controle remoto ligado a todas as coisas, sujeito a alterações de humor, que pode ser influenciado e mudar de opinião dependendo das bajulações ou pedidos através de orações com palavras bonitas. Que precisa de ''ordens'' para abençoar.
Será que precisamos estar reconhecendo publicamente que tudo depende de Deus? Não bastaria orarmos em silêncio? E a nossa responsabilidade? E os méritos?
Quanto ao diabo, demônio, satanás e outros, são figuras mitológicas, na realidade espíritos ignorantes que ainda permanecem no mal, mas estão fadados à perfeição.
Concluindo, nem Deus nem o diabo impedirão que o Brasil alcance uma posição de destaque, se eliminarmos a influência do poder econômico nas eleições, acabarmos com a corrupção, se Executivo, Legislativo e Judiciário estiverem comprometidos com o interesse público, se a educação for realmente prioridade e se tivermos justiça social.
VALCIR JOSÉ MARTINS é gerente de banco aposentado em Maringá

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