Desde a deflagração da Operação Satiagraha da Polícia Federal, fiquei pensando na profundidade do conteúdo da sua tradução: ''A busca da verdade''! Cada vez mais, autoridades vêm sendo desnudadas em seus ''esquemas ilusórios''. A sociedade brasileira não possui uma história de afetiva aplicação de Justiça. O fim da ditadura acabou na vergonhosa ''pizza'' da anistia ''ampla geral e irrestrita''. Desde o escândalo Collor, assistismos ''inertes'' a uma série de impunidades em casos como dos anões do orçamento, das privatizações, dos precatórios, Banestado, bingos, etc.
Passamos uma vergonha internacional com a decretação da prisão preventiva de Paulo Maluf pela corte judicial em Nova York, meses após ele receber a concessão de habeas corpus do STF tornando-se aqui imune logo após eleito deputado por decisão do mesmo tribunal. Até hoje a sociedade não viu investigação pela quebra dos sigilos de Paulo Okamoto para saber de onde vieram os recursos que usou para pagar as contas do presidente Lula. Também não foram abertas as contas com cartões de crédito corporativos utilizados na segurança do presidente Lula.
Por que ''jogar eventuais sujeiras embaixo do tapete'' ao invés de dar satisfação à sociedade e punir os vários crimes do ''colarinho branco''? Por que condenar publicamente os métodos de investigação e ação policial, discutindo de forma inédita no mundo como e quando um policial deve utilizar algemas em um preso?
A questão da vez são os grampos telefônicos. Agora o STJ anula julgamento por excesso de prazo de grampo com autorização judicial no caso Sundown, onde a quadrilha fraudava o dever de pagar impostos. O mesmo se deu com a libertação de membros do PCC por excesso do prazo da prisão sem o devido julgamento. E a sociedade, o que pensa? Qual é a política pública que ela quer para o País? A liberdade para os bandidos porque policiais, promotores ou juízes eventualmente erraram no método de investigação, de processo ou uso de algemas, mesmo que tenham conseguido obter indícios veementes da materialidade delitiva e sua autoria até mesmo indícios de crime na ante-sala do gabinete presidencial? Ou a prisão deles e manutenção das investigações e processos, mesmos com estes equívocos?
Se ''todo poder emana do povo'' como diz o artigo 1º da Constituição Federal (CF), o interesse público é que deve prevalecer, mesmo diante de eventual violação das liberdades/garantias, insculpidas no artigo 5º da mesma CF, para as quais já existem previsões de punição aos violadores. Será que a sociedade quer que as autoridades máximas constituídas defendam tanto, de forma incondicional, as liberdades de imagem, sigilos fiscais, bancários e de dados? Ou que elas deveriam ser relegadas a segundo plano frente aos indícios de mentira, hipocrisia, impunidade e criminalidade que rondam até a cúpula do poder?
Lembro-me do discurso do Papa Bento XI em abril deste ano, na Casa Branca, em resposta às hipocrisias de George Bush para justificar as guerras que apóia, onde citou pensamento do Santo Papa João Paulo II: ''Em um mundo sem verdade, a liberdade perde seu fundamento, e uma democracia sem valores pode perder sua alma (cf. Centesimus Annus, 46)''.
Será que a sociedade virá para o debate e dizer o que realmente pensa e se tem valores e alma? Ou irá continuar a se entorpecer nos milhares de ''botecos'' do país, calando-se como Pedro diante da agonia de Cristo?

GERSON MACHADO é servidor público federal em Londrina

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