Numa decisão de coragem e de comprometimento com a sociedade, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) aprovou o sistema de cotas para estudantes de escolas públicas. Muito já se foi dito a favor e contra as cotas em debates geralmente carregados de emoção e do ''racismo cordial'' que ainda campeia. Porém, só o tempo mostrará os impactos que tal decisão trará para a universidade, especialmente em seus cursos mais concorridos.

Curiosamente, creio que o curso de Medicina, devido à sua organização didática, ganhará. Na inovadora metodologia adotada o processo de ensino-aprendizagem não se restringe aos conteúdos. Alunos e professores caminham lado a lado, o conhecimento é construído de modo cooperativo e com a riqueza sóciocultural que a política de cotas proporcionará é provável que teremos profissionais ainda mais socialmente comprometidos.

Com a adoção de cotas, personalidades como o dr. Juliano Moreira - fundador da disciplina psiquiátrica no Brasil - não representarão mais uma rara exceção, onde cor de pele preta e origem pobre fazem parte da biografia de um destacado nome da medicina. É importante frisar que a discussão não passa pelas capacidades individuais, mas sim pelo racismo e pela desigualdade social que impedem o acesso de muitos.

Um aspecto que precisa ser ressaltado é que os alunos que ingressarão por intermédio das cotas estarão concorrendo entre si. Concorrerão entre iguais num nível de disputa similar ao que já existe. O ingresso ainda será para os melhores, só que dentro de um universo restrito. A questão do mérito, importante elemento da carreira acadêmica, será mantida.

Estudos apontam que em médio prazo uma política de cotas pode contribuir para a melhora do ensino médio - diante da possibilidade de ingresso, os alunos de escolas públicas estudarão mais e exigirão melhores condições de ensino - e das universidades particulares pela entrada de candidatos bem-preparados que com condições financeiras optarão por elas, corrigindo um pouco a distorção social em que os cursos mais concorridos do setor público se encontram ao não reproduzirem a diversidade socioeconômica brasileira.

As oportunidades que se abrem são imensas e esta decisão não pode caminhar sozinha. Parabéns a UEL que, ao adotar uma política de ação afirmativa, dá continuidade à sua responsabilidade social ao mesmo tempo que sublinha - e aqui temos um importante e significativo ponto - a profunda exclusão racial existente no país.

ALEXANDRE BRASIL FONSECA é doutor em sociologia, professor do departamento de Ciências Sociais e atua no curso de Medicina da Universidade Estadual Londrina

mockup