ESPAÇO ABERTO - Sinos de Nagasaki
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de março de 2012
Fábio Cavazotti <br> <br> 
O terremoto do Japão está completando um ano esta semana. Estava lá naquele momento a convite da Japan International Cooperation Agency (Jica) para participar de um curso de Educação Ambiental relacionado a projeto de monitoramento da qualidade da água do Ribeirão Cafezal, em Londrina - que tem apoio do governo japonês.
Uma história que li naqueles dias é hoje a lembrança mais presente que tenho da resiliência e da capacidade de reconstrução daquele povo - tão importantes nos momentos de crise. Trata-se da história de Takashi Nagai, um médico radiologista que morava em Nagasaki quando a cidade foi atingida pela bomba atômica, em 1945. Ao fim da vida, se transformou num símbolo de ascetismo e grandeza espiritual para todo o mundo.
Inicialmente ateu, Nagai foi se convertendo ao cristianismo por influência da família de sua esposa. O sul do Japão, onde fica Nagasaki, é a região em que há mais católicos no país em razão da passagem dos portugueses por lá séculos antes.
Em 9 de agosto de 45, quando a bomba atômica mudou a história da cidade, Nagai estava trabalhando em suas pesquisas no hospital que ficava do lado oposto do morro onde a bomba foi lançada. Fechado em área muito protegida, ele sobreviveu - e passou os primeiros dias pós-bomba sem sair do hospital, diuturnamente atendendo os feridos que conseguiam chegar até lá. Sabia que o bairro onde morava fora arrasado e, por instinto, entendeu que sua esposa - Midori - não havia resistido.
Um efeito direto da bomba sobre os sobreviventes é a sede - então eles chegavam ao hospital, maltrapilhos, com a pele derretendo, mortificados diante da hecatombe, e pedindo água, água, água...
Passados alguns dias, e tendo cumprido seu papel de médico num dos piores momentos da humanidade, resolveu voltar à sua casa para encontrar Midori.
Não havia sobrado nada em toda a região que morava. Sequer conseguia identificar sua casa, em meio aos escombros. Mas, andando por ali, e rezando, acabou reencontrando sua amada. Havia restado apenas um conjunto de ossos cuja mão segurava um terço. Reconheceu-a pelo terço. Ela morrera rezando. Takashi Nagai recolheu os ossos e os colocou num balde. Sozinho, caminhou até o cemitério e sepultou-a.
A partir daí, ao contrário de desenvolver o ódio ou a revolta contra o que acontecera, percebeu que tudo não passava de um sinal - um sinal Divino. Sinal de que a humanidade, como um todo, deveria voltar-se a seus melhores sentimentos; que a história estava indo por um caminho profundamente deturpado; e que somente pelo poder da fé e da espiritualidade conseguiria superar toda a dor e colaborar para a reconstrução de seu país - e de todo o mundo.
Em dezembro daquele ano, Takashi Nagai passou a procurar a antiga Igreja do bairro. Era um chamado de Natal. Acabou reconhecendo-a ao descobrir, sob o entulho, o sino de ferro da antiga Igreja de Nagasaki.
Resgatou-o, limpou-o e no dia 25 de dezembro, o sino da Igreja voltou a tocar. E com ele, uma espécie de comoção que ajudou a cidade a se reconstruir e tocar a vida para frente - renovada, sob novas bases e com o olho no futuro. Takashi Nagai morreu poucos anos depois, ironicamente por efeito da radiação a que se expôs em suas pesquisas radiológicas - e não da bomba. Nos últimos tempos, foi reconhecido por gente como Madre Tereza de Calcutá, que o visitou, como um dos maiores homens de sua época.
Durante a visita ao Japão, percebi como a bomba atômica é uma ferida ainda aberta. Trata-se de um país curado pelas dificuldades. O terremoto e o tsunami foram apenas mais um destes percalços. Diante de tudo, resta uma inabalável certeza: silenciosamente, o Japão está se reerguendo mais uma vez. Os sinos de Nagasaki continuam a tocar!
Fábio Cavazotti é jornalista em Londrina
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