Repetidamente ouvimos falar que o Brasil é um país que acolhe a todos, uma nação cordial, hospitaleira, sem preconceitos ou afeita a qualquer tipo de segregação. De tanto que esse discurso é anunciado, tendemos a aceitá-lo sem reservas, o que falseia a realidade. A intolerância de estratos expressivos da sociedade é escandalosa e ficou evidente na última eleição que trouxe à tona a incapacidade de aceitar a diferença, numa ideia de superioridade que marca certos grupos que se veem como os verdadeiros proprietários da nação e, por isso, quem deve decidir os seus destinos. Esse sentimento tem sido radicalizado através de discursos em favor do separatismo ou ameaças de abandono do País, o que demonstra preconceito e incapacidade de conviver com a democracia.
Uma boa parte dos indivíduos que pertence à elite econômica do país entende a sua posição privilegiada como fruto exclusivo do seu mérito e os problemas da nação como reflexo de um povo atrasado, desqualificado e inferior – virtudes individuais, vícios coletivos. Querem assim explicar as iniquidades nacionais a partir de dois grupos contrários: os virtuosos - superiores - e as massas – inferiores - que emperram o desenvolvimento da nação. Contudo, se esquecem de que a realidade nacional é antes de tudo a história da exploração, da dominação e da hierarquia, em que as "regras do jogo" sempre foram definidas pelos mesmos privilegiados em detrimento da grande maioria.
Temos que admitir que somos um país racista, classista e incapaz de lidar com a diferença. A democracia, conquistada a duras penas após duas décadas de ditadura militar sangrenta e geradora das mais profundas atrocidades, para muitos, tornou-se incômoda e indesejável, pois, ao legitimar o poder da maioria, trouxe à tona uma realidade que sempre foi escondida, de que a maioria da população é pobre e que ao ter consciência da sua condição e poder pode mudar o jogo. O impacto foi tão profundo que parte da classe dominante passou a questionar a pertinência do sistema democrático, apelando para a intervenção militar e outras aberrações, numa visão infantilizada do tipo: "Se não posso ganhar sempre, as regras do jogo estão erradas".
A ascensão da classe média vem criando incômodos insuportáveis em parcelas significativas da população que sempre se viu como superior, e dividir os mesmos espaços com as massas tornou-se um martírio. São comuns as esdrúxulas reclamações em relação aos aeroportos que mais parecem rodoviárias, as praias que se enchem de farofeiros, os shoppings que parecem feiras populares e os trabalhadores que possuem direitos demais.
O Brasil não está dividido entre Norte/Nordeste e Sudeste/Sul, mas entre a intolerância, visão classista e síndrome de superioridade e os que acreditam na grandeza de um país miscigenado, uma nação mestiça, como defendia Darci Ribeiro no livro "O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil". "O ruim no Brasil e efetivo fator do atraso é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus… O que houve e há é uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente."
Deveríamos almejar e lutar por uma nação onde o filho do rico e o do pobre estudassem lado a lado e que o futuro de cada um não fosse definido pela classe social, a cor da pele ou a região de nascimento. Não se trata de coloração partidária, mas de um choque de humanidade, é reconhecer o outro como semelhante, o insucesso e a dor do outro têm que incomodar e a igualdade de oportunidades e a democracia têm que ser vistas como valores invioláveis, parte da tessitura elementar de cada ser humano.

LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é economista, doutor em Ciências Sociais e professor na Universidade Estadual de Londrina

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