Infelizmente alguns casais vêem o sexo como uma obrigação, que deve ser cumprida de preferência em um dia específico. Há quem transe só no sábado, ou na sexta-feira, ou no domingo de manhã... Sério! Isso não é raro, não. É claro que não acontece entre os casais que estão há pouco tempo juntos e querem transar diariamente, ou pelo menos quatro vezes por semana, mas acomete aquelas duplas que depois de dez, vinte, trinta anos de convivência, estabelecem um tempo para o sexo como a mulher que agenda uma hora, toda semana, para fazer as unhas das mãos ou dos pés.
Nesses tempos bicudos, isso tem acontecido cada vez mais cedo. Se antes os casais demoravam 20 anos para atingir esse estágio, em que a atividade sexual é esporádica, hoje as pessoas se conformam com essa frequência com menos de uma década de vida em comum. E é bom dizer que não é só uma questão de frequência, não. Se fosse isso, estava ótimo. A transa acontece uma vez por semana, mas quando ocorre, é o máximo. Um sucesso, um prazer. Pronto, trocam-se as energias e o casal fica bem.
Infelizmente, as transas acontecem pouco e não têm qualidade. São mecânicas, rápidas, genitalizadas, é o chamado sexo fast-food. O corpo, por ter sido tão exposto em partes (todos nós cultuamos bumbuns e seios siliconados), fica fragmentado. As pessoas não se soltam inteiras, aproveitando os prazeres de todo o corpo, que possui zonas erógenas em toda a sua extensão. Acontece a penetração, o orgasmo, e só. Nem sempre o orgasmo, é bom dizer. Há crescente dificuldade em consegui-lo. Mas isso vem de encontro aos tempos de massificação e banalização do sexo. Há quem ache melhor ligar no canal erótico, ou mesmo ir teclar na internet, em busca de um parceiro sexual, do que descobrir os encantos de quem está ao lado, na mesma cama.
É preciso, portanto, fazer um exercício de auto-análise, questionando como anda a vida pessoal, o relacionamento, as expectativas com o parceiro, os projetos futuros, tudo isso. Em muitos casos, é possível fazer ajustes estruturais para organizar a vida melhor. Quando esse casal busca uma terapia, é porque, felizmente, já percebe que algo importante precisa ser feito, sob o risco de o relacionamento acabar.
Quase sempre são as mulheres que procuram os terapeutas, mais soltas para falar de seus problemas afetivos e sexuais, convencem os parceiros em acompanhá-las. O resultado, em geral, é positivo. A terapia faz o casal falar de suas inseguranças, colocar as questões para o outro, perdoar, sugerir, mudar a história a dois.

MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo

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