Dinheiro curto no final do mês, incertezas sobre o futuro, descrença de ter melhor qualidade de vida. Sintomas negativos como esses costumam provocar muita angústia e, conseqüentemente, afetar a sexualidade. Se já é muito frustrante viver sob restrições, mais frustrante ainda é não ver perspectivas de mudança. Quem está desempregado há um ano, por exemplo, deixa de acreditar que é possível conseguir nova colocação. Perde a garra, a capacidade de luta, a energia. E sob forte stress, ocorre uma intensa liberação de adrenalina, verdadeiro veneno para o organismo. Em alta, essa substância facilita a hipertensão, o pânico, a insônia, a dor de estômago, a ejaculação rápida e a perda de ereção.
  A pessoa submetida constantemente a situações de angústia tem a nítida sensação de desequilíbrio emocional. Às vezes, nem se dá conta do grau de tensão em que vive. Mas não tem desejo sexual, não percebe mais a beleza das coisas, não ouve a música que antes apreciava.
  Onde foi parar o desejo sexual? Como a pessoa não está atenta a ele, não toma mais banho junto com o parceiro, não beija apaixonadamente. Toda a libido está a serviço das incertezas e das insatisfações. Com a função sexual totalmente alterada, o orgasmo, que antes acontecia facilmente, agora demora horas – às vezes, a mulher não consegue nem mesmo se excitar. No homem, o stress contribui para a perda de ereção e para a ejaculação rápida – ele passa a ter medo sempre que vai para o encontro íntimo de repetir aquela cena constrangedora.
  Sem cabeça para pensar em sexo, a mulher não consegue sensualizar o contato; já o homem, como está muito ansioso, mantém uma relação sexual para combater a insônia. Faz sexo justamente para reduzir a angústia e não para ter satisfação, apesar de que muita coisa melhorou com o surgimento do Viagra. A mulher que tem um parceiro que está desempregado observa que, em geral, a primeira atitude dele é se fechar para a companheira, por medo e vergonha. O indivíduo se sente desqualificado, desvalorizado perante a família e os conhecidos; humilhado, acaba fugindo do relacionamento. Quando consegue mantê-lo, reduz a freqüência sexual, aumenta o número de brigas em casa, perde a vontade de procurar os amigos, sente-se constrangido de buscar os filhos na escola. Imagine esse homem, cujo bom salário o fazia ter destaque social, passar um ano sem emprego: como ele se sente? Aprendeu que homem de verdade não pode falhar, precisa ter bom desempenho. Sempre e em todas as áreas.
  É preciso ajudar esse homem, para que não se afunda em angústias e se isole cada vez mais. O apoio dos familiares e dos amigos é da maior importância para ajudá-lo a reaver a confiança perdida e insistir na busca de um novo trabalho. Evitar o isolamento, o uso do álcool e outras drogas é fundamental para não cair em depressão.

MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo

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