Quando Michael Foucault escreveu a história da sexualidade, no segundo volume, intitulado ''O uso dos prazeres'', omitiu qualquer referência ao celibato, pois no pensamento e filosofia deste autor o celibato é simplesmente ''impossível''. Vivemos numa cultura pansexualista e dela somos herdeiros. Cada vez mais o tema do sexo está preenchendo o espaço e o vazio de uma sociedade que se debate diante das perguntas e respostas que ela mesma se faz, só que sem a suficiente capacidade para estabelecer respondê-las ou enfrentá-las.

O sexo no século XXI é uma espécie de anônimo presente, ou melhor, de presente ausente e desconhecido. Fala-se em sexo, como nunca antes, se oferecem todo tipo de informações e modalidades para que as pessoas alcancem a plenitude da sua vida sexual, mas ao mesmo tempo se percebe a decadente e dramática situação na qual se vive diariamente.

Durante muito tempo a Igreja Católica e as igrejas históricas em diferentes lugares do mundo e momentos da história foram consideradas simplesmente retrógradas e hipócritas em questões sexuais. De fato, muitos acreditavam que o ''pecado original'', era um pecado sexual. Assim, como também quando se aprendia o decálogo, o mandamento que ninguém esquecia era o sexto: ''Não cometerás adultério'' (Êxodo 20,14).

Tudo isto faz parte da vida de homens que, no dia a dia, vivem a proposta de integrar sua sexualidade a um projeto que não é outro que o do Reino. Por mais harmoniosos, equilibrados e dotados de virtudes que apareçam diante dos outros, não são nem assexuados como os anjos, nem virtuais como as figuras das telas.

Somos nós, os sacerdotes, membros do clero da Igreja Católica, homens de carne e osso, homens com uma história sexual como a de tantos outros, querendo viver plenamente o chamado que o Senhor do Reino nos faz: ''Segue-me''. No Reino uma das propostas mais ousadas se não a mais desafiadora de todas, é a proposta do discipulado, se é pessoa para ser discípulo e como pessoas que somos possuímos todas as forças vitais que qualquer outra pessoa possui. Somos feitos para amar. Jesus Cristo nos fez esta proposta a todos os seus discípulos e discípulas. Neste projeto de amar e ser amado a virtude da castidade comporta, portanto, a integridade da pessoa e também a sua doação. A castidade representa uma tarefa eminentemente pessoal, implicando também um esforço cultural, familiar e eclesial. Não se é casto por simples vontade. A graça se recebe através do Espírito que nos sustenta e mantêm.

Uma das diversas formas de viver a castidade é o celibato. Para muitos como para o autor citado no início do texto, simplesmente impossível, mas também para muitos outros uma vocação, um jeito de amar, de se oferecer e de se entregar. Um projeto que centra a sexualidade não no amor próprio e sim no amor ''oblação'' e radical entrega aos irmãos e irmãs, na acolhida livre de cada um para anunciar o Cristo. Este amor é radical e exigente tanto quanto o amor entre os cônjuges, somente que terá a particularidade de ser um amor, além das escolhas e do exclusivo para se tornar universal.

Sei que os escândalos sexuais que ultimamente têm aparecido motivam muitos a pedir pela abolição do celibato; sei que muitos nos olham com desconfiança e até se mostram incrédulos diante das nossas escolhas; sei que somos motivo de piada e até de severas críticas, mas se vocês me permitem, quero que saibam que por trás de cada bispo, padre, monge ou religioso, se esconde um homem ''apaixonado'' pelo seu Deus, querendo responder da melhor forma possível, vivendo seus esforços e esperanças e começando de novo, assim como o mesmo Jesus o diria a tantos dos seus ouvintes na Galileia: ''Levanta-te e anda''.

JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN é doutor em Teologia Moral e sacerdote da Arquidiocese de Londrina

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