ESPAÇO ABERTO - Sete anos depois
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de março de 2011
José Sinésio Rodrigues <br> 
No final deste mês se completará sete anos da primeira ocasião em que um brasileiro viajou ao espaço. Este brasileiro foi Marcos Pontes, escolhido como astronauta em 1998. Na época, o Brasil passou a fazer parte do projeto de construção da ISS (Estação Espacial Internacional), o primeiro complexo espacial construído por vários países. O Brasil foi o 16º país a integrar esse que é o maior e mais importante projeto de cooperação científica e tecnológica até hoje empreendido. Era uma chance única para mostrarmos ao resto do mundo que temos um programa espacial atuante e uma indústria competitiva. Tudo o que o Brasil precisava fazer era construir algumas peças para a estação espacial e isso nos daria o direito de enviar ao espaço nosso astronauta em algum dos ônibus espaciais americanos sem custo algum.
As coisas começaram a dar errado antes mesmo da missão de Marcos Pontes. O Brasil, infelizmente, deixou de cumprir sua parte no acordo, não construindo nem num único parafuso para a estação espacial. Mais do que uma atitude desagradável de nossa parte, isso nos tirou o direito de mandar nosso astronauta ao espaço sem custo.
A saída foi firmar acordo com a Rússia para que ele subisse em uma nave Soyuz. Perdendo o direito de enviar gratuitamente seu astronauta ao espaço, o Brasil teve de pagar pela missão. Contudo, aqui tivemos uma pequena vitória: os russos nos cobraram US$ 10 milhões, quando o normal é cobrarem o dobro deste valor (não muito tempo depois, Malásia e Coreia do Sul pagaram US$ 35 milhões para que seus cosmonautas subissem ao espaço em naves russas). Pouco depois, fomos vergonhosa e definitivamente cortados do projeto. Conseguimos o triste recorde de ser o primeiro país excluído da ISS.
Sete anos após o voo de Pontes, tenho a tristeza de constatar que a maioria lembra-se do feito apenas como um gasto de dinheiro que pouco ou nada trouxe de positivo. Grande engano. A ISS é o único laboratório desprovido de gravidade, de modo que apenas ali algumas experiências podem ser efetuadas. Pontes realizou 16 experiências, nos 10 dias em que esteve no espaço, entre elas observação do efeito da microgravidade em enzimas, danos e reparos do DNA, comportamento de minitubos de calor, germinação de diferentes sementes e estudo da clorofila.
Cada experiência teve sua importância, escolhida e elaborada por grandes instituições de pesquisa, tendo ainda aplicação prática em outras pesquisas, no desenvolvimento de equipamentos e na indústria. Foi um momento único na história da pesquisa e da tecnologia nacional.
Porém, a missão recebeu críticas até mesmo da comunidade científica. Triste, mas compreensível, uma vez que nossos pesquisadores são obrigados a trabalhar com ínfimas frações do valor gasto com a missão de Pontes. Assim pudessem todos os setores da ciência brasileira dispor de recursos suficientes! Mas nada justifica as críticas.
Por que ninguém criticaria se o país gastasse o dobro do valor para enviar nossa seleção para uma Copa do Mundo? Por que ninguém criticou a decisão de Lula em gastar seis vezes mais que o valor do voo de Pontes para comprar um jatinho - o famigerado Aerolula?
Devo lembrar ainda que a missão de Marcos Pontes pode ter trazido uma vitória extra: o deslumbramento dos jovens pelo voo espacial. A Astronáutica e a Astronomia são porta de entrada para outras ciências. Invista nestas áreas, deslumbre os jovens com a visão do Universo e teremos, no futuro, grandes químicos, biólogos, engenheiros, físicos, geólogos, geofísicos, astrônomos e - assim espero - outros astronautas.
JOSÉ SINÉSIO RODRIGUES é aluno de Geografia da Universidade Estadual de Londrina e coordenador da área de Astronáutica do Grupo de Estudo e Divulgação de Astronomia de Londrina


