Somos chamados a uma nova responsabilidade em relação à Palavra de Deus. Facilmente nos tornamos dominadores, manipuladores, donos da Palavra. Obrigamo-la a dizer o que não disse. Domesticamos a Palavra conforme nossos interesses. Deformamos o Evangelho e torcemos, ajeitamos, manipulamos a mensagem. Uma leitura da Palavra ao pé da letra é perigosa. A isso chamamos de fundamentalismo. Outro exagero é o espiritualismo, o misticismo bíblico.
Para bem interpretar a Palavra precisamos da fé, do estudo, da luz do Espírito Santo e do magistério da Igreja. Bem alertou o apóstolo Paulo quando ensinava que não devemos falsificar a Palavra, silenciá-la, emudecê-la, acorrentá-la, ocultá-la, ignorá-la. Portanto, não devemos pregar a nós mesmos, tornando estéril a Palavra que anunciamos, com nosso comportamento errado e más ações. Prejudicamos a Palavra pela incoerência da vida. Assim, a Palavra perde sua força e transforma-se em palavrório, prédica, demagogia, lábia, som vazio, tagarelice, retórica.
Bernanos, autor do livro ''Um pároco de aldeia'' relata que Jesus faz esta pergunta ao pároco: ''Que fizeste com a minha Palavra?''. No Evangelho de Lucas, Jesus perguntou ao seu interlocutor: ''Como lês as Escrituras?'' (cf. Lc 10,26). Em outra ocasião Jesus diz claramente: ''A Escritura não pode ser anulada'' (Jo 10,35). A Igreja precisa ''ouvir piamente, viver santamente, anunciar fielmente'' a Palavra, ensina o Concílio Vaticano 2º, porque ela ilumina a mente, fortalece a vontade e ordena os afetos, cura as feridas.
A nova responsabilidade para com a Palavra quer dizer: ter bons microfones e saber usá-los, resolver os problemas de acústica, zelar pela comunicação na liturgia, ter cuidados com a voz, preparar os leitores, dar orientações sobre os cantos e a música, preparar a homilia, orientar os fotógrafos, ter ministro do som, zelar pelas celebrações da Palavra. O destino da Palavra é o ouvido, o coração e os lábios. Ela não pode cair no chão. Uma Palavra vivida e bem proclamada transpassa os corações. Ardia o coração dos discípulos quando Jesus pregava a Palavra.
Precisamos alcançar a meta de sermos uma ''religião da Palavra'' e não do livro. Nossa meta é a animação bíblica de toda a vida da Igreja. Um catolicismo bíblico irá superar a sacramentalização e o devocionalismo. As pessoas divinas nos ensinam a ouvir a Palavra. O Pai revela que ''ouviu o clamor do povo'' (cf Ex 3,7). O Filho confessa: ''O que vos falo eu ouvi de meu Pai'' (Jo 8,38-40). Referindo-se ao Espírito Santo Jesus diz: ''O Espírito dirá o que ouviu'' (Jo 16, 13).
Responsabilidade para com a Palavra significa: ouvir, silenciar, interiorizar, escutar a Palavra. A Igreja tem que ser ''mestra da escuta'' se quiser ser discípula, profética e missionária. Sem a Palavra cai a profecia e enfraquece a missão.
Demos à Palavra o primado que ela merece. Ela vem antes do catecismo, antes do terço, antes das devoções. Grande erro e engano é supor que o nosso povo conhece a Palavra. Pelo contrário, grande é o analfabetismo bíblico. Por isso o papa nos convida a uma redescoberta, a uma maior familiaridade e maior amor para com a Palavra de Deus, pois, ''ela é o coração de toda a atividade eclesial'' (VD1!). Há que reconhecer escreve Bento 16 que ''nas últimas décadas aumentou a sensibilidade da Igreja pela Palavra'' (idem). Longe de nós o medo de colocar as Escrituras na mão do povo, oferecendo estudos e incentivando a vivência da Palavra, regra suprema da fé.
Mais uma vez reafirmamos a importância da ''Bíblia na mão, no coração e pés na missão''. A celebração dos 50 anos do Concílio Vaticano 2º, o Documento da CNBB sobre a Palavra de Deus, o Sínodo da Palavra (2008), a mensagem Sinodal e a Exortação Apostólica Verbum Domini do papa Bento 16 oferecem chance e oportunidade para uma animação bíblica de toda a vida da Igreja, uma autêntica mobilização bíblica tão necessária para nossos tempos.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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