ESPAÇO ABERTO - Será que mudou mesmo?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
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No do último dia 07, neste espaço aberto, o ilustre deputado Filipe Barros publicou um artigo abordando o tema conservadorismo e as eleições municipais, dizendo, ainda, que a imprensa é progressista e hostil ao governo. Com o respeito que ele merece como cidadão e deputado federal, eu resolvi fazer algumas considerações sobre o seu artigo.
Como sempre, atribui-se a imprensa o caráter hostil e progressista quando ela de forma clara e objetiva mostra para a população as mazelas, a incompetência, irresponsabilidade, inconsequência e os desmandos de um governo.
Ao contrário do que o senhor deputado escreveu, com o fim das eleições municipais, as matérias e as reflexões de renomados jornalistas e cientistas políticos não foram hostis a Bolsonaro. Elas apenas retrataram, através de números, a situação real do desempenho dos candidatos por ele apoiados, resultado, diga-se, pífio. Portanto, neste caso, atribuir a imprensa a pecha de progressista e notoriamente hostil a Bolsonaro com o objetivo de enfraquecê-lo e derrotá-lo nas próximas eleições se revela, infelizmente, uma infâmia.
Eu achei extremamente contraditório dizer que a imprensa é progressista e notoriamente hostil ao Governo, e digo isso porque se o ilustre deputado entende que a imprensa atual é progressista é porque ele reconhece que ela atua segundo a razão, a verdade e o bom senso, atributos dos mais característicos do progressismo, até porque os progressistas entendem que o Estado deve ser ágil, receptivo e promotor de mudanças, e evolutivo nas ideias, tudo isso contrário ao pensamento dos conservadores que no Brasil desprezam a razão, a verdade e o bom senso.
Uma das grandes mudanças obtidas pelos progressistas foi a adoção do sufrágio universal, do voto feminino, dos direitos trabalhistas, dos programas sociais, do fim da segregação racial e do racismo etc. e nenhum deles tem caráter de esquerda, mas de evolução, de inserção social e econômica. Mais contraditório, ainda, é ter se utilizado de um jornal, um dos maiores do Sul do Brasil, para dizer que a imprensa é progressista e hostil. Se ela assim o fosse o senhor deputado não teria o espaço que teve para expor suas ideias, já que não excluiu este jornal do rol de veículos de imprensa progressista e hostil.
Uma democracia forte exige e necessita de uma imprensa forte, livre, saudável, sem medo de quem quer que seja, sendo que apenas governos frágeis ou fracos têm medo da imprensa, e por isso se prestam em atacá-la, desacreditá-la, diretamente ou através de fake news, isso bem típico do atual governo.
O senhor deputado disse que eles, conservadores, se encontram em uma situação bastante distinta daquela dos governos anteriores. Será mesmo, senhor deputado? E a aliança com o Centrão, a escória mais perversa da política brasileira que Bolsonaro disse abominá-lo, e com esse mesmo Centrão se aliou de corpo, alma e princípios?
E Bolsonaro apoiando Arthur Lira para presidente da Câmara dos Deputados, este o príncipe das rachadinhas de Alagoas, e já réu no Supremo Tribunal Federal por crime de corrupção? E por falar em rachadinha, e a precária situação em que se encontra o senador Flávio Bolsonaro, que durante o seu mandato como deputado estadual no Rio de Janeiro assim agiu com seus assessores?
E os cheques depositados por Fabrício Queiróz na conta da senhora primeira dama? E o gabinete do ódio prevaricando dentro das dependências do Palácio do Planalto, segundo afirma o STF? E o discurso solene decretando o fim da Operação Lava Jato? E os apoios espúrios aos fanáticos incentivando-os em passeatas e protestos pedindo o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, em nítido crime contra a Constituição Federal? E a tentativa de intervenção na Polícia Federal para favorecer e proteger seu filho, Flávio? E a negação e desprezo que manifesta contra o combate à Covid? Vocês acham que realmente se encontram em uma situação bastante distinta de outros governos?
O entendimento que o atual governo tem de conservadorismo também é extremamente contraditório, e digo isso porque um conservador, deve, por natureza e na sua essência pensar na política como um meio de preservar os princípios da legitimação dos poderes, da ordem, justiça e liberdade, e daí eu pergunto: fomentar passeatas e atos antidemocráticos, dentre tantos outros, e tentar calar a imprensa representa os princípios fundamentais do conservadorismo? Hitler também dizia ser um conservador nato, mas, iguais aos conservadores brasileiros, era de extrema direita e se escondia dentro desse modelo para se tornar, depois, um ditador e genocida.
Almir Sudan, brasileiro, graduado em direito, economia e jornalismo


