ESPAÇO ABERTO - 'Será que agora vai?'
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terça-feira, 08 de junho de 2004
René Ruschel 
Vamos por partes. Primeiro: o que é o Produto Interno Bruto - PIB? Simplificando para o bom português é a soma das riquezas, bens e serviços, produzidas por todos os setores da economia num determinado período. Como indicador macroeconômico trata-se de um importante instrumento na avaliação de resultados e no planejamento das políticas econômicas. Daí o governo federal ter dado toda esta ênfase aos números divulgados pelo IBGE, que mostram um crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano na ordem de 2,7% em relação ao mesmo período de 2003.
Segundo: a que se deve este crescimento? Fundamentalmente ao aumento da demanda externa, ou seja, as exportações. Isso é bom? É ótimo, afinal, o Brasil precisa de divisas. A terceira pergunta é: esse tipo de crescimento pode ser considerado auto-sustentável? Não, pois basta qualquer boato ou fato político para que tudo venha à bancarrota. Daí a expressão ''bolha de desenvolvimento'' cunhada pelos economistas para se referir a um período de euforia com pouca consistência. Aliás, a história tem demonstrado que nenhum país conseguiu consolidar seu processo de desenvolvimento econômico e social de forma duradoura sem um mercado interno forte. Ninguém contesta que esse crescimento é fundamental para o país, no entanto é preciso evitar o discurso ufanista.
No Brasil a situação permanece crítica. Noutra consulta - de Orçamentos Familiares - o IBGE constatou que 85% das famílias com renda mensal inferior a R$ 3 mil comem mal e gastam mais do que ganham. O jornalista Marco Antonio Rocha, num artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, ''Será que agora vai mesmo? Como?'', toca o dedo na ferida ao afirmar que ''não interessa ter um PIB imenso com um povo pobre'' e conclui que ''na prática a renda do povo precisa melhorar e os empresários serem estimulados a investir''.
Neste caso uma questão parece lógica e clara: o Brasil só irá retomar o trilho do desenvolvimento sustentado quando tiver um mercado interno forte. Para tanto, será necessário um aumento no consumo das famílias, que por sua vez exige renda e emprego. Mas nada será possível sem estímulos ao investimento produtivo. Se o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue por essa trilha, na prática as medidas tomadas pelo ministro Antonio Palocci e pelo Comitê de Política Monetária - Copom, com a manutenção das taxas de juros elevadas, faz o caminho inverso. O resultado dessa aritmética está refletido na pesquisa divulgada recentemente pelo Dieese onde o índice de desemprego na grande São Paulo atingiu a marca recorde de 20,7%.
A economia é uma ciência demasiadamente complexa para ser analisada sob um ponto de vista superficial, além do que as variáveis envolvidas neste jogo são inúmeras. Assim, se a sociedade não deve exigir do presidente Lula que num passe de mágica ele tire o Brasil do inferno para adentrar ao paraíso, também não é admissível que seja mais vez enganada pela retórica oficial dos governantes.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


