ESPAÇO ABERTO - Sem-terra ''com orgulho''
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de janeiro de 2004
Edson Neme Ruiz 
A tradicional revista ''A Granja'', do Rio Grande do Sul, publica reportagem relatando que são cada vez mais frequentes os contratos de arrendamento ou de parceria rural, nas principais regiões brasileiras produtoras de grãos. Isto significa - e a revista ressalta - que ter terra própria não é requisito fundamental para produzir e prosperar no campo, e que hoje é comum colonos optarem pelo arrendamento ou associação com o proprietário da área. Nos últimos anos ocorreu uma mudança de mentalidade em relação à posse da terra, e a prática tem provado que para ser eficiente e ganhar dinheiro não é preciso ser dono da propriedade.
Agricultores que optaram por esse sistema declaram-se sem-terra ''com orgulho'', porque trabalham com dignidade, junto de toda a família. Essa prática vem resolvendo um dos problemas comuns na atividade rural, que é a do alto investimento representado pela aquisição da gleba. Quem não tem recursos para comprá-la, então a arrenda ou opera em parceria. O arrendatário (ou parceiro, se esta for a opção) assume a adoção de tecnologias, preparo e manejo da terra, e o arrendador ganha pela renda estabelecida entre as partes. As vantagens são mútuas. Naturalmente que aquele que se dispõe a enfrentar a lavoura tem de ter experiência na atividade e, acima de tudo, vontade de trabalhar.
No Paraná, há pecuaristas arrendadores que aproveitam o experimento da integração lavoura/pecuária para recuperar áreas degradadas, depois de muito tempo de pastagem. Assim ganham dinheiro, e também ganham os que arrendam essas áreas e as revertem para a agricultura enquanto durarem seus contratos. Um círculo virtuoso então ocorre, que é o ganho de ambas as partes e o saneamento dessas terras, pela rotatividade de usos.
Esses fatos demonstram como são tantas as opções de rendimento no campo - apesar dos naturais percalços que a atividade oferece - e que existe solução inteligente para o problema dos sem-terra, sem a necessidade da violência caracterizada pelas invasões e suas danosas consequências. Para ganhar dinheiro com a terra, quem é da atividade não precisa ter a posse dela, embora seja um direito seu o anseio de possuí-la, desde que por meios legais. Ocorre que entre os muitos sem-terra acampados há um numeroso contingente que nada sabe das lidas rurais e está ali atraído pelas promessas de ser contemplado com uma propriedade.
Sem-terra que são colonos e que, por qualquer circunstância, ficaram fora da atividade - uma delas o alagamento implantação de usinas elétricas - podem encontrar o seu caminho de volta ao campo por via de arrendamentos ou parcerias, ou como assalariados se houver uma adequação da legislação trabalhista para o meio rural. Quanto aos outros, que habitam sob lonas e não são colonos, estes formam o exército dos desassistidos sociais e não será um pedaço de terra agricultável que irá resolver a sua situação. Problemas e fórmulas de solução estão aí expostos, dependendo de boa vontade e de estratégias sabiamente conduzidas.
EDSON NEME RUIZ é presidente da Sociedade Rural do Paraná com sede em Londrina


