ESPAÇO ABERTO - Sem inclusão não há solução para a violência
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segunda-feira, 14 de junho de 2004
Francisca Vergínio Soares 
Inúmeras pesquisas têm indicado que o crime organizado vem cada vez mais se utilizando da mão-de-obra jovem e barata disponível, principalmente nas comunidades carentes. Não é segredo também que essa relação aumentou, principalmente a partir da década de 1980, inicialmente no Rio de Janeiro se estendendo ao resto do país. O que poucos querem entender - num momento em que cresce o número de pessoas que cada vez mais se enclausuram em suas casas, devido ao crescente aumento da violência urbana relacionada ao tráfico de drogas - é que essa disponibilidade dos jovens está diretamente associada à falta de alternativas, como uma educação que realmente vise sua inclusão social. É drástico, mas o tráfico lhes oferece uma ascensão, um status que dificilmente conseguiriam pelos meios normais numa sociedade de exclusão.
Apenas no Estado do Rio de Janeiro são mais de 2 milhões de jovens sem perspectivas de emprego. Nos presídios, mais de 10 mil pessoas estão detidas por envolvimento com o tráfico de drogas. E 90% delas têm menos de 24 anos de idade. No país, são mais de 23 milhões de jovens e crianças entre 4 e 24 anos fora das escolas e pré-escolas, segundo o IBGE. A sociedade, principalmente nas grandes cidades, se vê impedida de praticar um dos mais importantes dos direitos - o de ir e vir -, por insegurança, devido não apenas às possibilidades de assaltos, mas também pela grande quantidade de batalhas, nas guerras entre quadrilhas, é imperativo que se aumente a luta para o resgate da juventude brasileira.
A contrapartida será engrossar ainda mais as estatísticas que já indicam, se focalizarmos só o Rio de Janeiro, o envolvimento de mais de 6 mil jovens com o tráfico. Nos últimos oito anos, o tráfico tem sido o primeiro colocado na lista de infrações cometidas por jovens, conforme levantamento da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.
A Unesco, organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, publicou um livro que revela as desigualdades brasileiras no trato com a juventude. O ''Mapa da Violência III: os Jovens do Brasil'' foi editado em 2002 junto com o Ministério da Justiça e o Instituto Ayrton Senna. Diz esse estudo que os números da violência variam conforme o estado. O Paraná, por exemplo, está numa situação intermediária nas duas situações, a da riqueza e a de homicídios de jovens. Porém, em São Paulo, Rio, Pernambuco e Espírito Santo, metade ou mais das mortes de pessoas entre 15 e 24 é resultado de assassinato.
Outro estudo de campo, este realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indica que a infração juvenil está associada não à pobreza em si, mas, sobretudo à desigualdade social, ao não exercício da cidadania e à ausência de políticas públicas básicas voltadas para a juventude. Os números não mentem e apenas comprovam que se não houver inclusão social será impossível o recrudescimento da violência.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e professora de Ciência Política e de Sociologia Jurídica em Londrina e Apucarana


