ESPAÇO ABERTO - Sem gramática, cidadania na prática
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de agosto de 2004
Jaime Pinsky 
Num país em que o presidente de um importante clube de futebol tem a cara-de-pau de declarar que sonega dinheiro do INSS, a discussão sobre o sentido da cidadania se impõe. É notória a idéia de que só é cidadão aquele que possui direitos civis, políticos e sociais, pelo menos após a publicação do livro História da Cidadania, em 2003, com a colaboração de importantes historiadores, filósofos, escritores e cientistas sociais brasileiros, tornou-se rapidamente um marco teórico e uma referência na bibliografia brasileira.
Restava, contudo, responder a outras espécies de indagações, estas de ordem prática: está, de fato, a sociedade brasileira mobilizada a favor da cidadania e, nesse caso, que importantes ações no sentido de estender a cidadania a todos, estão sendo executadas - e ainda, por quem? Quais os obstáculos que estão sendo enfrentados para que essas ações se concretizem? Quais os apoios recebidos e quais os agentes reais desse apoio? Que desafios ainda encontram pela frente aqueles que, abrindo mão de interesses pessoais, partem para a prática cidadã?
A partir daí, nos perguntamos se era possível juntar, num único livro, a voz de representantes do governo e da sociedade civil, militantes de ONG's e executivos encarregados do setor de responsabilidade civil nas empresas.
Assim, convidamos uma série de cidadãos para narrar suas experiências e, a partir delas, tentar traçar parâmetros que possam auxiliar, tanto na elaboração de políticas públicas mais consistentes quanto de práticas empresariais mais comprometidas com as necessidades da sociedade.
Conseguimos a proeza de colocar lado a lado juízes e promotores, jornalistas e economistas, administradores e advogados, historiadores e antropólogos, urbanistas e educadores, psicólogos e matemáticos. O livro abriga petistas e tucanos, feministas e ecologistas, empresários e administradores públicos.
É curioso verificar que, embora sem haver uma unidade na ação, há uma unidade de propósitos. Há em todos eles um traço comum: o fato de serem trabalhadores, gente que luta pela cidadania, acredita no que faz. Práticas de cidadania não é, portanto, um livro com uma só resposta, mas com a sugestão de múltiplos caminhos possíveis.
JAIME PINSKY é historiador, doutor e livre docente pela USP e professor titular da Unicamp


