Não assisti, mas o alarde foi grande. Estou falando da entrevista de ''Alfa'' e ''Beta'', como se identificaram os dois supostos integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) no programa exibido pelo SBT no último dia 7. Com pose de figuras importantes que tem muito a dizer ou ensinar à sociedade fizeram sérias ameaças a personalidades num claro desafio ao poder público. O quarto poder, leia-se a mídia, capitaneada pelos programas de níveis duvidosos, tem mostrado que na guerra pelo ibope os fins justificam os meios, a ética desqualificou-se de vez. Conforme chamou a atenção os promotores que investigam o caso, ''a veiculação por parte do programa entra para o debate ético, e não jurídico''.
Nesta briga pelo ibope, outra vez a população é a grande vítima principalmente as camadas pobres onde as famílias têm sofrido horrores por causa da cooptação de seus filhos adolescentes pelo tráfico. Das histórias que conheço de famílias pobres, muitas delas perderam seus filhos porque eles -bandidos - foram ou são mais convincentes porque seus estilos de vida são mais atraentes em relação ao que os pais podem proporcionar-lhes. Os pais estão perdidos, não sabem em muitos casos, como no das drogas, lidar com a situação.
De um lado, sentem-se pressionados pelos próprios filhos; de outro, por um discurso moralista que diz que os pais não sabem educá-los; de outro ainda; pelo traficante que desfila pelas comunidades assediando seus filhos. Para completar, esses pais estão desprovidos de políticas públicas que integre seus filhos à sociedade, impedindo-os de resvalar para a violência criminal. No Projeto de Segurança Pública para o Brasil, do governo Lula está explícito que ''os crimes letais são os mais nefastos. Dado que se concentram na juventude pobre, protegê-la constitui a tarefa prioritária de uma política consequente de segurança pública''.
Não é de hoje que a mídia, em especial certas programações televisivas, tem prestado um desserviço à nação, como o caso da entrevista dos supostos integrantes do PCC. A hipótese de uma armação é possível, mas o que está em evidência é a apologia ao crime, a glamourização do bandido e o incitamento à violência. Como diria o filósofo Adauto Novaes, tudo é motivo de espetacularização, no mundo tudo vira espetáculo.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é professora na Universidade Estadual de Londrina e na Uninorte/Londrina e coordenadora do Projeto ''Observatório da Violência''

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