ESPAÇO ABERTO - Segurança pública, classes populares e violência (1)
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de setembro de 2003
Francisca Vergínio Soares 
A rivalidade entre grupos opositores que disputam territórios dentro das comunidades carentes de Londrina tem feito vítimas inocentes, como o recente caso do funcionário da Bratac e um menino de nove anos que foram alvos da absoluta insegurança a que o cidadão londrinense comum está submetido. É uma disputa de mercado, entre criminosos e não entre as comunidades. Mas são estas as que mais sofrem. Nessa guerra só tem derrotado.
O clima é de terror. Semelhante ao conflito entre judeus e palestinos. As crianças crescem odiando os que moram em lado oposto. São pessoas que crescem ao som do tiroteio, do toque de recolher e do medo.
Esta luta não tem vencedores, só derrotados. O conflito não se limita ao lado de dentro, seja de uma ou de outra favela. Desestabiliza tudo. É uma verdadeira tragédia o que está acontecendo com o jovem na faixa etária de 12 a 25 anos em Londrina.
Se de um lado, eles têm sido assassinados, muitas vezes por conflitos interpessoais; por outro, estes mesmos jovens estão matando qualquer um que ousa passar à sua frente. É um verdadeiro faroeste, as armas são de fácil acesso e para eles são como brinquedos que ostentam nos espaços comunitários. A qualquer ameaça de grupos rivais já empunham e revidam aleatoriamente, como o que aconteceu no confronto entre o Nossa Senhora da Paz e a Favela Pantanal. Neste mesmo lugar, semanas antes desse episódio macabro, o muro da empresa foi derrubado por moradores revoltados com a execução do adolescente Everton Luiz Marcondes de 14 anos.
Acuados, os moradores tornam-se reféns de gangues que se confrontam para disputar espaços para o comércio de drogas. A pergunta que não pode calar é: por que só nas comunidades pobres?
A violência não está lá, mas é levada para lá pelo seu principal desencadeador que é a droga e o pobre que já carrega o estigma da pobreza passou também a carregar o estigma da violência. É um crime fazer esta associação, é um crime o que o Estado de Direito não faz para coibir uma tragédia que poderá ainda ser pior.
Os jovens estão matando e na mesma proporção que matam, também estão sendo mortos. Qual a solução? Enquanto segurança pública significar construção de presídios sem considerar a falta de oportunidades e a concentração de riquezas, dificilmente vislumbraremos solução. Segurança pública é antes de tudo prevenção, o que se faz através de projetos educacionais e geração de empregos.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga e docente da Universidade Estadual de Londrina e da Uninorte


