ESPAÇO ABERTO - Segundo turno: hora de repensar
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de outubro de 2004
Luiz Carlos Ferraz Manini 
Com os resultados das eleições para prefeito e vereadores em todo o Brasil, somos confrontados com uma realidade ao menos estranha: vários candidatos eleitos não poderão assumir seus cargos por envolvimento com questões cuja repercussão atinge o âmbito nacional.
Tal é o caso do prefeito eleito de Unaí, em Minas Gerais, que se encontra detido por suspeitas de estar envolvido no episódio do assassinato de fiscais do governo federal naquela região. A justiça autorizou o candidato a tomar posse mesmo preso, o que nos leva a pensar sobre qual é o futuro deste país.
Que o Brasil é o país do futuro desde 1500, é inegável, muito embora este futuro tão promissor e redentor nunca chegue. Continuamos presos a uma hipocrisia corrupta que atravessa a sociedade de cima a baixo, independentemente de cor, credo ou condição financeira. A corrupção está de tal forma enraizada em nossas realidades que mal percebemos o que ela é. Naturalizamos a condição de levar vantagem sobre os outros, e não percebemos as distinções entre o público e o privado.
Tal forma de confusão nos leva a cometer absurdos, como eleger candidatos que são amigos de nossos parentes, nossos amigos, alguém que conhecemos ou aquele candidato que passou por aí e deixou uma cesta básica. Trocamos a participação política, de natureza pública, por mesquinharias privadas, o velho e indefectível jeitinho brasileiro.
Idolatramos essa instituição tão nossa, e reclamamos de suas consequências. Seria ingenuidade ou hipocrisia? Desconhecimento ou falta de vergonha? Em Londrina teremos um segundo turno, o que não representa algo de espetacular e novo, mas uma forma democrática de elegermos nosso representante. Mas seria demais lembrar que não é ele que paga o asfalto da sua rua e sim você mesmo? Não é do bolso do prefeito que sai o dinheiro para o remédio do hospital, mas sim do seu, leitor. E esta é a hora de nos perguntarmos: para onde vai o dinheiro dos impostos que nós pagamos quando chegamos no posto de saúde e nem mesmo há o médico para atender? Será que pelo menos nessa hora lembraremos que é o nosso dinheiro que foi desviado?
Vamos apelar para o bom-senso neste segundo turno, e não votar em cestas básicas, camisetas, canetas e demais sortilégios eleitoreiros, mas sim na capacidade administrativa e no caráter dos candidatos, para que não dependamos da famosa boa vontade paternal hipócrita de certos políticos que somente se voltam ao povo quando precisam do ''sim'' na hora do voto.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


