Grande parte do Estado do Paraná se encontra com níveis de precipitação abaixo da média ou ocorrendo de forma errática nesta safra. Manchetes sobre prejuízos, inflação nos preços de alimentos e ''quebras'' de produtores e empresas do agronegócio proliferam.

Não tenho receio em afirmar que a situação é grave porque os gestores do agronegócio têm sido reducionistas em suas estratégias de planejamento há muito tempo. A falta de chuvas - ou sua irregularidade - é uma ameaça esperada, prevista e perigosamente menosprezada pela classe produtora, incluindo aí a todos os seus segmentos.

Uns, veem a agricultura como uma atividade cada vez mais fácil, simples e reduzida, menosprezando as leis da natureza e suas variáveis imponderáveis; outros são tolerantes ou ''curto-prazistas'', deixando que circunstâncias mercadológicas predominem sobre decisões técnicas que deveriam ser priorizadas; outros ainda, não se comprometem como deveriam. Transformar a agricultura em uma atividade empresarial planejada a longo prazo, dimensionada tecnicamente em seus fatores biológicos, econômicos, sociais, logísticos e ambientais, para obter lucros estáveis, há poucos tentando empreender.

Em regiões como a nossa, em que as chuvas dificilmente se repetem de maneira similar a cada safra, ''fechar os olhos'' para a tendência de redução do ciclo da soja, para a redução de sua ''janela de semeadura e colheita'', para a dominância da ''monocultura univarietal'', me parecem equívocos estratégicos do setor. O atual menosprezo técnico para com as boas práticas agronômicas de manejo de solos e água, capazes de reduzir a vulnerabilidade dos sistemas, igualmente se caracteriza como um equívoco.

O risco de uma atividade se avalia pela dimensão do agente que ameaça (neste caso a distribuição e o volume de precipitação) multiplicado pela vulnerabilidade do sistema produtivo. O risco será imensamente reduzido se a vulnerabilidade do sistema for pequena, ainda quando a ameaça seja grande. Ora, se sabemos que a ameaça é grande, então por que permitir ou insistir em um sistema de produção reconhecidamente vulnerável?

Por detrás da ponderação geral de que ''quem toma a decisão final sobre o que fazer na propriedade é o produtor'' e que, por dedução, as instituições e seus profissionais de Agronomia pouco podem fazer, sinto certo comodismo para com o sistema vigente.

Quem sabe, neste momento de perda e aflição, seria oportuno que os gestores do agronegócio repensassem sobre a complexidade das interações entre a agricultura e o ambiente na qual ela se desenvolve, para retomar certas responsabilidades agronômicas intransferíveis, entre elas, a necessidade de planejar ações estratégicas para a redução de riscos. A agricultura é uma atividade complexa e que se realiza com muito mais fatores do que simplesmente crédito, sementes, fertilizantes, pesticidas e máquinas, por melhor que estes possam ser.

Pessoalmente, defendo uma posição mais reguladora das esferas técnicas do agronegócio, sobre como se deve manejar a agricultura e seus componentes. Deixar o agronegócio aos sabores mais afáveis do ''negócio'' tem demonstrado que aspectos vitais do ''agro'' têm sido relegados a planos muito inferiores de prioridades. Afinal, estas esferas técnicas, além de promotoras do desenvolvimento econômico individual têm o dever, por juramento profissional, de ser defensoras dos interesses da sociedade.

MARCOS JOSÉ VIEIRA é engenheiro agrônomo em Londrina



■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 li­nhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas).
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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