ESPAÇO ABERTO - Samba, ciência e arte
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004
Donato Parisotto 
Um dos objetivos do Modernismo, no mundo e no Brasil, foi desmistificação, desestilização da aristocracia da ciência e da arte, patrimônio de uma nobreza. Tanto a ciência como a arte eram hermética. Só, após um século, mais ou menos eram divulgadas e conhecidas.
O Modernismo, através da imprensa oral e escrita, divulgou as atividades dos cientistas em seus laboratórios, centros de pesquisas; sobretudo a televisão que adentra os lares e mostra as novas descobertas científicas e técnicas: os foguetes espaciais; o homem a pisar na lua; Marte com possibilidades de água e vida; o clone, até de vaca brasileira; o celular até com figuras. É fabuloso andar a pé, de carro... trocando mensagens necessárias e urgentes com pais, amigos e parentes. Tudo é fabuloso, mas o mais fabuloso é ''O Carnaval da ciência''.
O famoso e genial Marcelo Gleiser em Mais, caderno da Folha de S.Paulo, (dia 21/02), encanta-se como o fato de ''A Ciência'' ser a temática do enredo da escola de samba Unidos da Tijuca, do Rio de Janeiro. ''O sonho da criação e a criação do sonho: a arte da ciência no tempo do impossível'', provando definitivamente que ciência também dá samba.
Afirma Marcelo, ''genial essa iniciativa de combinar a maior festa brasileira com a ciência é ajudar a desmistificá-la junto a um público que, na maioria, tem pouco interesse por essas coisas''.
Por que não tem interesse? Explica-nos o carnavalesco Paulo Borges e sua equipe: ''Afinal, a ciência lida com o desconhecido, com questões que vão desde o mundano e prático ao sublime e grandioso. Trazer essa busca pelo conhecimento para a passarela é um experimento que desbrava fronteiras culturais...
A ciência faz parte de nossa cultura e tem de ser vista como tal. Se o seu significado tem de ser traduzido para que seja captado por setores maiores da população, que seja assim. Fico orgulhoso de ver a ciência na avenida, em meio a muito samba, suor e cerveja. Afinal a dança ocorre em vários níveis: das pessoas aos elétrons, prótons, neutrinos e às radiações as mais diversas (...) tudo vibrando em frequências visíveis e invencíveis, espalhando conhecimento e sorrisos em uma noite do verão carioca''.
Fabuloso e inédito: coisa do Brasil. Parabéns à escola Unidos da Tijuca, a seu feliz carnavalesco, Paulo Barros corajoso, a sua equipe e a Marcelo Gleiser, com sua feliz análise.
Mais fabuloso, ainda, é o afirmar de Roald Hoffmann, ganhador do prêmio Nobel, que saiu pela Unidos da Tijuca, em artigo publicado pela Folha de S.Paulo (24/02): Nobel quer unir Ciência e Samba. ''A ciência devia estar na cultura popular, as pessoas gostam de DNA''.
Questionando sobre por que compara a mistura do carnaval com a ciência um ''experimento'', o cientista explicou que existe uma espécie de diálogo entre os dois ramos, como em uma reação química.
Hoffmann ficou empolgado com a possibilidade de popularizar (grifo meu) a ciência por meio de festas populares e defendeu a ampliação da experiência de escola de samba carioca. Para nós, brasileiros, o depoimento do intelectual-pesquisador, qualificado e desqualificado, marca época e história: desmistificar, popularizar e desestilizar o conhecimento científico hermeticamente aristocratizado em laboratórios.
Túnel do tempo, carro alegórico da escola, apresentando ao povo o grande físico alemão Albert Einsten é um excelente exemplo inédito. Ciência, arte e samba dão as mãos e sambam felizes na escola Unidos da Tijuca. A ciência humaniza a natureza. Não pode ser patrimônio hermético de poucos. Parabéns ao carnavalesco Paulo Barros e sua equipe.
DONATO PARISOTTO é professor em Londrina


