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Londrina

Opinião

m de leitura Atualizado em 20/06/2022, 00:08

ESPAÇO ABERTO - Salvando vidas no trânsito: o caso holandês

Nós não precisamos e não devemos aceitar uma epidemia de lesões e mortes na estrada ao preço do chamado “progresso”.

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de junho de 2022

Marcio Meranca Machado
AUTOR autor do artigo

Foto: iStock
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No Brasil, acidentes de trânsito ceifam dezenas de vidas por dia, junto com milhares de lesões sérias, resultando, em 2021, em mais de 5.000 mortes em 64.000 acidentes de carro. Se qualquer outra indústria tivesse um número de mortos seria imediatamente desativada, ao menos seria investigada e tão logo devidamente reformada. Algo está violentamente errado em nossas estradas.

Na Holanda, acredita-se que a mobilidade é um direito humano básico e ninguém deveria ter que arriscar sua vida para viajar, chegar ao trabalho, voltar para casa, ir às compras, ir a um compromisso, atravessar a rua, sair com um amigo e familiares. Esta é a premissa por trás da “Vision Zero” (do inglês, Visão Zero): Uma família de programas de segurança no trânsito na Suécia, Países Baixos e outros países europeus, baseado em princípios de segurança sistemática.

Desde 2010, as mortes nas estradas brasileiras vêm diminuindo, graças a melhorias nos veículos e melhor medicina de emergência. Mas na Holanda as fatalidades caíram muito mais drasticamente. O que eles estão fazendo que não fizemos?

O programa de segurança rodoviária holandês costumava ser reativo como o nosso, ou seja, identificando e consertando locais somente onde um grande número de acidentes ocorre. Em contrapartida, desde os anos 90 os holandeses seguem uma abordagem sistemática da segurança. Isso significa não esperar para que ocorram falhas, mas sistematicamente eliminar as possibilidades de colisões que geram altos riscos de lesão e mortes e, se ocorrem, que sejam de baixo risco.

Os problemas de segurança no trânsito são inerentes a duas propriedades bem humanas. Nossos corpos não foram adaptados para absorver a força de colisões com veículos, seja dentro ou fora deles. Outrossim, é natural errar, involuntariamente ou não. Se todos nós obedecermos a todas as leis de trânsito sempre, quase não haveriam falhas, contudo somos humanos e um sistema que é seguro somente se as pessoas não erram, não é um sistema adequado para humanos.

Leia mais: https://www.folhadelondrina.com.br/economia/petrobras-aumenta-gasolina-em-52-e-diesel-em-142-3207035e.html

A segurança sistemática reconhece essas propriedades humanas fundamentais e com base nelas tem-se cinco princípios.

O primeiro é o controle de velocidade e separação. Há uma velocidade máxima segura para todo tipo de via. Velocidade de controle significa muito mais do que apenas postar um limite de velocidade numa placa ou demarcar o asfalto. O projeto da estrada deve refletir a velocidade alvo.

O segundo princípio é harmonia funcional. As ruas podem ter muitas funções, como fornecer acesso a casas ou lojas, abrigar uma canaleta de ônibus ou linhas de bondes, meramente fluir o tráfego ou, ainda, excluir completamente o tráfego criando as chamadas zonas pedestrializadas. Harmonia funcional significa que uma estrada deve evitar ter funções incompatíveis.

O terceiro é previsibilidade e simplicidade. As pessoas cometem menos erros quando o design mostra o que se deve fazer e quando as decisões são simples. Por exemplo, em cidades holandesas o pavimento vermelho significa uma ciclovia e faixas de pedestres quase sempre tem uma ilha de travessia, porque é muito mais simples e, portanto, muito mais seguro, verificar uma direção de cada vez.

O quarto princípio de segurança sistemática é cautela e restrição. Cautela significa que se alguém comete um simples erro não vai resultar em ferimentos graves. Restrição significa impedir as pessoas de cometer erros que elas queiram cometer. Por exemplo, separando fisicamente ciclovias impede as pessoas de estacionar nelas.

O quinto princípio: a particularidade do motorista. Relaciona-se com coisas fora do âmbito do design da estrada, como motoristas ao celular e condutores inexperientes.

A mobilidade que os carros e estradas nos trouxeram significou ganhos enormes para a prosperidade e liberdade humana, mas a Visão Zero diz que nós não precisamos e não devemos aceitar uma epidemia de lesões e mortes na estrada ao preço do chamado “progresso”. A experiência europeia mostra que as vias podem ser projetadas para serem sistematicamente seguras.

Marcio Meranca Machado é engenheiro civil em Londrina

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