ESPAÇO ABERTO - Rigor com os agressores de Borba Gato


Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves

  O vandalismo presenciado no último sábado, junto à estatua de Borba Gato, é inaceitável. Independente de gostar ou reprovar a história do bandeirante, ninguém pode ignorar que a obra de arte faz parte do mobiliário urbano e - há mais de meio século - ornamenta aquela parte da avenida Santo Amaro e até serve de ponto de referência. Embora seja um bem público, porque de todos, não é dado ao cidadão ou a  grupos o direito de alterá-la e, muito menos, destruí-la.


Os responsáveis pelo incidente têm de ser todos identificados, abordados e processados (cível e criminalmente) pela depredação do bem público e ofensa ao patrimônio cultural do povo paulistano. Além de compelidos a ressarcir as despesas de reparação do monumento, têm de responder pela ofensa cultural, pouco importando o que pensam ou o que alguém lhes disse sobre o homenageado. Os agressores não são revisores da história e nem têm qualquer credencial digna de questionar as honras que a comunidade um dia prestou aos seus vultos do passado.


Se as autoridades responsáveis pela guarda e manutenção do bem atacado e as da Segurança Pública e da Justiça não agirem energicamente, correremos o risco de se tornarem frequentes os ataques e depredação em outros símbolos relativos à história nacional, estadual ou municipal. A simples narrativa de qualquer celerado ou ignorante interessado em perturbar a ordem pública será motivo de novas ações se os desordeiros do Borba Gato não forem exemplarmente punidos. Imagine-se o que poderão fazer se ouvirem vozes discordantes da Revolução de 32, dos jesuítas e de tantos outros personagens que compõem a nossa história.


Não há a mínima razão para protestar contra Borba Gato, outros bandeirantes ou qualquer personagem homenageado com estátua, monumento ou denominação de logradouro público. Antes de censurá-los à sombra das teorias e narrativas do momento, é aconselhável buscar o contexto da época em que viveram para, só assim, poder tentar a compreensão da importância que tiveram e a justificativa do reconhecimento público hoje traduzido nas peças e espaços que os homenageiam.


Em vez de confiar em narrativas nem sempre verdadeiras ou significativas, é preciso estudar, conhecer e compreender as diferenças temporais. Compreender que, se vivessem hoje, muitos personagens certamente agiriam diferente do que fizeram no passado porque não sentiriam e nem precisariam resolver os problemas que enfrentavam no seu tempo.


A vida de uma comunidade é uma sucessão de fatos que, pelo bem ou pelo mal, pela paz ou pela guerra, influenciaram no seu desenvolvimento e nos legaram o que temos hoje. O reconhecimento aos vultos históricos é fruto do pensamento comunitário sobre a sua contribuição. Nada impede, no entanto, que o senso geral se altere de acordo com as mudanças políticas, sociais e comportamentais.


Caso algo soe muito impróprio num determinado momento, os incomodados podem, ordeiramente, propor as alterações que lhes pareçam mais adequadas. Anos atrás, alguns próceres políticos tentaram banir de logradouros públicos os nomes de integrantes do regime militar, mas não conseguiram. A única mudança  mais significativa foi a alteração do nome do Elevado Presidente Costa e Silva – como o denominado por Paulo Maluf em 1970 – para Elevado Presidente João Goulart. Mas para o povo, o lugar tem um nome imutável: Minhocão. Ainda mais: a grande discussão de hoje não é quanto ao nome, mas entre as opções de manter ou demolir suas pistas, que já não têm a mesma importância urbanística do passado.

O respeito aos símbolos da sociedade é um dever de todo cidadão. A história de cada vulto pode servir de parâmetro para os indivíduos de hoje e, também, de exemplo do como não se fazer. Mas, sabemos, o passado é passado e não há como mudá-lo. A única mudança possível é a do presente, que pode lançar reflexos para o futuro. No presente episódio, a única reivindicação plausível é não se praticar a impunidade, essa praga social e institucional que tanto nos tem atrasado nosso país.

 

 Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves,  dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) 

A opinião do autor não reflete, necessariamente, a opinião da FOLHA. 

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