Ao ler a revista ''IstoÉ'' desta semana, que fala da expansão do budismo no Brasil, ocorreu-me revisitar os ensinamentos de Buda, que viveu 500 a 600 anos antes de Jesus e, abandonando sua condição de príncipe e o fausto do palácio, buscou ''os princípios eternos da verdade'' até alcançar o nirvana, ou o estado da mais absoluta plenitude espiritual.
A dor não é sem causa, mas tem por efeito purgar as faltas de existências passadas, cuja expiação prossegue através de múltiplas transmigrações da alma - ensina o budismo. O princípio do carma, que é a lei da causa e efeito, da ação e consequência, é o fundamento da doutrina.
Sidharta Gautama (seu nome de nascimento), também conhecido como Sakyamuni (sakya, da tribo dos sakyas, e muni de sábio), ou simplesmente Budha (tradução do sânscrito para ''o desperto''), ao meditar ao pé da figueira ''reviu claramente todas as suas existências anteriores, uma após outra, e percebeu que a atual fazia parte de uma cadeia ininterrupta de nascimentos, mortes e renascimentos de corpos carnais pelos quais seu espírito havia passado''. Era um dos seus momentos de entrada plena no não-ser - o não ser a carne, o não ser a mente, mas ser a sua pura essência, ou o estado de aniquilação de tudo o que prende o homem às coisas da vida terrena.
Mas se Buda chegou a esse grau de desprendimento, também ensinava que mais valem as obras que as intenções e que não é suficiente obter a compreensão da Lei mais colocá-la em prática.
O mestre indiano e o mestre nazareno deixaram ensinamentos exatamente idênticos mas que foram entendidos de maneira diferente pelos respectivos povos aos quais se dirigiam. Os budistas buscaram o aperfeiçoamento individual a partir das lições do seu guia, enquanto os cristãos não alcançaram a profundidade das palavras e exemplos de Jesus, preferindo adorá-lo e fazer-lhe súplicas e delegar-lhe a incumbência de salvá-los.
Buda não ensinou os mistérios às gentes, já que não os compreenderiam, reservando essas revelações aos iniciados. E Jesus falava por parábolas ao gentio, revelando os mistérios apenas aos discípulos, e assim mesmo nem todos os entenderam.
Ensina o budismo que todos os seres são idênticos na sua essência, e se eles se manifestam sob mil formas é porque estão em estágios diferentes de evolução; que não basta evitar o mal e sim que nem nossas palavras o causem; que cada ação deve ter como fim a destruição de uma falta; e que as diferenças pessoais e sociais, o poder e a subordinação, a saúde e a doença, são meios de purificação que nos são impostos ou que nós escolhemos antes de nossa vida atual.
''Vigiai os vossos lábios como se eles fossem as portas de um palácio habitado por um rei, e falai como se o rei estivesse presente''. A presença do rei é como a presença de Deus em nós, que constantemente nos vê e escuta.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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