ESPAÇO ABERTO - Reparação histórica já! Cotas sim
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de junho de 2004
Maria Eugênia de Almeida 
O Conselho Municipal da Comunidade Negra e entidades que o constituem apóiam a proposta da Universidade Estadual de Londrina (UEL) de cotas para alunos oriundos da escola pública e negros. Entendemos que a UEL assume uma posição de vanguarda, promovendo de fato reparação histórica, há tanto tempo reivindicada pelos movimentos negros em todo Brasil.
Sem dúvida nenhuma a defesa de cotas não desobriga às melhorias necessárias à educação básica, permitindo o acesso e permanência de todos desde os primeiros anos de vida. Defendemos também um ensino de qualidade em todos os níveis, mas acreditamos que a medida de cotas é emergencial e estratégica, dentro de um conjunto de ações afirmativas, por isso imprescindíveis à construção de uma nova sociedade. Não se trata de assistencialismo ou desqualifição, mas é antes de tudo, o desejo de que mais uma vez os negros e negras não precisem esperar o ''bolo crescer para depois dividir''.
No Brasil um trabalhador negro recebe em média R$ 262 enquanto um branco recebe R$ 573 para o mesmo tipo de trabalho. Uma trabalhadora negra recebe em média 60% menos que um trabalhador branco. 69% dos miseráveis brasileiros (abaixo da linha de pobreza) são negros e 64% dos pobres também. Os negros no Brasil ocupam apenas 1,8% das vagas nas universidades. Em cada 4 mortes na periferia, 3 são negros. Os negros ocupam apenas 1% dos postos estratégicos do mercado de trabalho. O número de negros que deixa a escola no Brasil, por conta das péssimas condições de vida e por ter que se jogar no mercado de trabalho mais cedo, é 21% acima da média.
Esta realidade só vai mudar quando a sociedade reconhecer as limitações impostas pela cor da pele e deixar de acreditar que existem diferenças entre brancos e negros e que certas posições jamais poderão ser exercidas por negros. Precisamos reconhecer que o mito da democracia racial impediu o Brasil de resolver grande parte da sua tragédia social (miséria, desemprego, violência, etc). Precisamos acreditar que o caminho para sanar os malefícios provocados pela desigualdade racial no Brasil deve ter sua base na educação e trabalho.
A reserva de vagas na universidade, enquanto ação afirmativa, é uma medida concreta que propiciará reparação das perdas acumuladas no longo processo histórico de exclusão estrutural brasileiro, viabilizando o acesso à educação e consequentemente ao mercado de trabalho para uma parcela significativa da sociedade que, inquestionavelmente, contribuiu e contribui para construção da riqueza nacional. Somos, enfim, por uma sociedade mais fraterna e igualitária, com a qual sonham todos os brasileiros, negros e não negros.
MARIA EUGÊNIA DE ALMEIDA é membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Londrina, da Associação Afro Brasileira e do Movimento União e Consciência Negra de Londrina


