ESPAÇO ABERTO - Renúncia papal
Um indivíduo religioso busca o alcance do sagrado como tentativa de comunicação com um Deus (ou vários deles). Uma tentativa de se viver o presente, unida à pretensão de eternidade. Uma busca pela participação na suposta santidade da vida.
O homem moderno deseja ser livre. Porém, não tem a convicção de que pode fazê-lo sozinho. O homem moderno deseja ser altamente racional. Porém, não consegue encontrar respostas totais para suas indagações e desesperos. De qualquer forma, a busca religiosa, além de assegurar certa integridade, também pode oferecer soluções para as dificuldades encontradas pelo indivíduo. Principalmente o contemporâneo.
Não há dúvidas que o homem precisa sentir-se o centro do mundo. A tendência religiosa que lhe der essa sensação, provavelmente o terá.
Confesso que a renúncia do Papa Bento 16 me deixou um tanto quanto desamparado (ou mais). Ao ponto de sentir-me em dissonância com os pensamentos ventilados pela maioria católica: coragem, humildade, sinal de força. Eu, ao contrário, não absorvi tais convicções com a iniciativa do Santo Padre. Ao contrário. Em minhas contínuas dúvidas como católico, sinto-me ainda mais fraco.
Afinal, me vem à cabeça que Cristo não desceu da cruz, não cedeu em suas convicções e não afirmou, nos momentos mais "cruciais", estar desprovido de força espiritual. Diriam alguns: mas o papa é um ser humano! Sim, claro. Porém, posto como símbolo sagrado para os católicos (o que excede o seu lado humano).
Atualmente, as forças religiosas são consideradas por muitos como fator de esclarecimentos de posições políticas. E não pode ser diferente, mesmo que, aparentemente, as duas práticas sejam distintas (enquanto a religião aparenta ser de cunho estritamente privado ao dizer respeito à intimidade, a política parece dizer respeito ao que é coletivo). A dissociação entre política e religião não faz sentido, uma vez que tanto uma quanto a outra difundem interdições, juízos de valor e advertências, gerando comportamentos que são refletidos em convicções coletivas. Porém, ao fazer a opção ao que parece por um posicionamento basicamente político, Bento 16 deixou-me um vazio religioso ao não persistir, ao admitir não possuir forças, ao "descer da cruz", ao despir-se da santidade que lhe foi oferecida.
Como cristão, sempre me foi passada a ideia de persistência nas boas intenções.
Mau uso do dinheiro, disputas de poder, desvios do mordomo, escândalos sexuais... É muito material envolvendo questões espirituais, apontando-nos que, há muito, a Igreja não tem mais autoridade moral para ela mesma acreditar que seus decretos sejam expressão da vontade divina.
João Paulo 2º me foi um exemplo de resiliência. Como comandante, não "abandonou o navio" (talvez até aquele comandante, tão criticado, se sinta melhor a partir da iniciativa de Bento 16).
Pedem-nos como bem fez o respeitável Dom Orlando Brandes - para que façamos uma reflexão sobre nossos apegos, sobre nossas limitações, sobre nossas fragilidades e incapacidades a partir da iniciativa papal. Compreendo. Porém, visto sob ângulo oposto, a ação de Ratzinger (permita-me, papa Bento 16, referir-me assim à sua pessoa a partir de agora), pode ser sentida contrária.
Confesso que, como ser vivente, tenho minhas convicções ainda mais abaladas com a renúncia papal, sentindo que devo ser mais cristão e menos católico.
AGNALDO KUPPER
é professor em Londrina





