Nossa realidade não é o corpo físico contendo o espírito, mas o espírito utilizando-se do envoltório carnal. Porque só dessa forma pode desempenhar sua missão nesta dimensão terrena. Nós não somos o corpo, somos o espírito. O espírito é a essência, é a verdade; e o corpo, apenas uma temporária ferramenta. O espírito manifesta-se pela consciência e pela retidão dos nossos atos, e é o que guarda nossas virtudes; a personalidade, inerente à substância física, é o ego, com todas as suas ramificações e consequências.
A essência é pura e imutável. É o nosso Eu maior, a nossa realidade substancial eterna. O ego é representado pelos nossas atrações terrenas, daí resultando também os ódios, iras, paixões, ciúmes, ganâncias, invejas, maledicências e desníveis emocionais. O ego está em constante luta com o espírito, e no mais das vezes o vence e o sufoca. É por isso que a humanidade sofre e não encontra o seu ponto de equilíbrio.
Se não cuidamos de policiar e dominar essas imperfeições - que são a simbolização bíblica dos demônios - permitimos que elas se robusteçam e sufoquem nossas virtudes. Nesse estado será inútil prostrar-se em súplica e clamar por graças divinas, porque elas não vêm dos céus nem de lugar algum, a não ser de dentro de nós mesmos.
Se aquelas forças do ego nos dominam, criam em nós uma couraça tão densa que não permite a manifestação de nossa divindade, consubstanciada em nossa essência primordial. Então, será inútil orar e pedir, se não removermos primeiro esse cascão que viemos criando e que envolve e aprisiona nossos bons atributos. A fórmula mágica é ir eliminando as maléficas manifestações do ego, e assim iremos abrindo passagem para a libertação das virtudes que habitam nosso corpo espiritual.
Como disse Jesus, é preciso antes morrer para o mundo, não a morte física, mas morrer para os nossos vícios. Ou como disse Buda, seiscentos anos antes de Jesus, é preciso antes auto-aniquilar-se para o mundo, querendo dizer a mesma coisa. Nós também, como o mestre nazareno, podemos dizer ''vade retro, satanás'', no sentido de afastar a tentação para as baixas paixões mundanas.
Nada nos chega de fora para dentro, nem as graças que queremos alcançar, porque tudo emana de nós para fora. O que desejamos, primeiro se cria dentro de nós. O mais virá por acréscimo, com todas as divindades prontas para nos ajudar. Não há outra forma.
Se rompermos as barreiras que viemos edificando, e abominarmos progressivamente nossas imperfeições, iremos abrindo o reservatório de nossas virtudes e permitiremos a revelação de nossa essência, que é o nosso Eu substancial, o Eu divino, a nossa porção de Deus, o Reino em nós. É esse Reino que temos de buscar primeiro. E aí todos os milagres passarão a acontecer.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup